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O choque económico da tecnologia

Portugal ferve com a febre do empreendedorismo tecnológico. A promessa de um Silicon Valley português, com lugar de destaque num mundo cada vez mais global e avançado, parece demasiado poderosa para se ignorar. O choque tecnológico alardeado há alguns anos continua a sua caminhada para a relevância estrutural na economia do país. A tecnologia surge como característica diferenciadora na atribuição de financiamento através de fundos comunitários.

Na sequência do Web-Summit, grande evento mundial sobre start-ups e tecnologia, surgem uma série de pequenos eventos mais pequenos sobre o tema, um pouco por todo o país. O empreendedorismo está na moda como nunca esteve. Lisboa posiciona-se como uma das grandes capitais da internet à escala europeia, cavalgando uma onda de dinamização económica impulsionada igualmente pelo turismo.
A saída do Reino Unido da União Europeia apresenta uma oportunidade única para o acolhimento de empresas que pretendam continuar a laborar no espaço europeu. Lisboa e Porto assumem a sua candidatura como destino de algumas dessas empresas. Um pouco por todo o país brotam espaços de incubação de empresas tecnológicas. Os concelhos deste país querem sentar-se à mesa e comerem um pedaço do bolo do desenvolvimento económico.

Esta onda tecnológica tem todos os ingredientes para propiciar ao nosso país uma saudável injeção de diversificação económica e de progresso material.
Porém, cada oportunidade acautela riscos e este entusiasmo inclui alguns.

A tecnologia é frequentemente apresentada como libertária e igualitária; um processo equalizador de rendimentos e que trará justiça a um mundo de desigualdade desenfreada. Independentemente de todo o progresso que a tecnologia tenha trazido ao mundo (e trouxe imensa, sem quaisquer dúvidas), a verdade é que a tecnologia é apenas acessível àqueles que compreendem e “falam” a sua linguagem. Desta forma, nesta economia que se pretende digital, haverá aqueles que não conseguirão acompanhar a marcha do progresso, seja por temperamento, falta de oportunidade ou incapacidade.

Do ponto de vista geográfico, se Lisboa, Porto e outras cidades se apresentam como pontos de desenvolvimento fulcrais e naturais desta digitalização, o mesmo não se poderá dizer o dos territórios mais periféricos. Ao contrário do que fora prometido, a tecnologia dificilmente tornou irrelevante o lugar; se tanto, apenas tornou mais evidente a necessidade da fisicalidade enquanto fator promotor de sinergias que levam ao crescimento empresarial.

Uma notícia recente na imprensa portuguesa refere que embora Portugal detenha excelentes marcas no que toca a infraestrutura digital, o envolvimento da população na tecnologia é incipiente; a utilização das tecnologias de informação por parte dos portugueses é básica, o que reduz a nossa capacidade de criação de um mercado verdadeiramente tecnológico. No interior do país, esta realidade é especialmente presente, o que coloca um entrave à disseminação dos efeitos benéficos de uma economia digital. A promoção da literacia tecnológica nestes territórios torna-se uma importante prioridade, pois se formos utilizadores mais exigentes desses meios, abriremos novas oportunidades para novas infraestruturas, novos negócios e novas formas de fazermos negócios tradicionais.
No fundo, a oportunidade da nova economia tecnológica poderá constituir um motor económico e social, desde que seja acompanhada por um modelo de redistribuição das suas mais-valias económicas, proporcionando maior igualdade de oportunidades às diferentes regiões; o sonho do choque tecnológico só se fará com mais e melhor conhecimento.

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