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Aparições

Acho que fui à catequese uma vez, ainda andaria na escola dita primária. A catequese era logo a seguir à missa (ou seria antes) na sé. A catequista distribuiu uma folha branca com o presépio por colorir (aquelas gravuras que só têm contorno e que são denominadas para colorir, são essas mesmas). Foi há tantos anos que, agora, acho estranho, mas estou a presenciar uma folha com as figuras do presépio e lápis de cor. Os lápis azuis eram insuficientes para as jovens mãos e a catequista disse-nos que podíamos pintar o céu de distintas cores (podíamos ser criativos). O céu é azul, achei algo estranho naquela proposta de recolorir o céu de outra cor, mas lá pintei o céu de cor de laranja. As gravuras bíblicas das madres na escola primária eram mágicas porque significavam, para mim, uma história algo prolongada e, fundamentalmente, a ausência dos malditos ditados.

Para mim, os ditados eram a essência da ditadura.

No antigo ciclo preparatório, as aulas de religião e moral eram da responsabilidade do prior da cidade (esse mesmo). Numa das aulas, o pároco contou-nos que um homem mergulhara nas profundidades do oceano com uma máquina de filmar e que inesperadamente lhe apareceu um tubarão enorme e agressivo que o atacou. Na luta, a máquina filmou a morte do homem pelo tubarão. Ficamos assustados, mas o sacerdote explicou que o homem desrespeita Deus ao desvendar os seus segredos (não apenas o terceiro segredo). Quando fiz um dos cursos de iniciação teatral, o formador pediu para cada um de nós (os alunos) contar uma história, sentado numa cadeira, que seria teatralizada nas suas costas (não na sua ausência) pelos restantes companheiros. Contei esta história do mergulhador e do tubarão e, neste mesmo momento, reapareceram as imagens do meu colega mais volumoso a fazer de tubarão.

Fui escuteiro duas vezes, uma como candidato a escuteiro do corpo da cidade e outra no teatro. No processo de iniciação a escuteiro, um dos jogos propostos era de memorização. Vários pequenos objetos tapados com um lenço que apareciam durante um minuto e depois desapareciam debaixo do mencionado lenço (todos conhecem o jogo). Fui, dos jovens aprendizes, aquele que memorizou mais objetos, foi um sucesso. A ideia de convívio até era estimulante, mas a necessidade de comprar uma farda acabou com o meu projeto de escuteiro. Anos mais tarde fui, de novo, escuteiro (fardado e tudo) numa peça de teatro, em que era o ajudante do sacristão. A peça começava com a minha entrada em cena com uma cesta de flores. Na primeira fala dizia «É a última» e o sacristão respondia-me «Tens feito bom trabalho minha joia, tantas flores Santo Deus».

Há trinta anos fui a Fátima, no dia da aparição mariana. Fui de autocarro a partir de Coimbra. Visitei a capelinha das aparições, a oliveira (ainda em estado vigoroso) e, na pequena igreja, as campas rasas de Jacinta e Francisco. Juntei-me à multidão sofrida do cansaço e da fé e roguei para ter sucesso nos exames que se aproximavam (o rogado foi atendido, tinha estudado o ano inteiro). Sempre que recordo esse dia, das aparições, aparece uma fotografia que registei, uns sapatos de mulher (que certamente caminharam em peregrinação até à Cova de Iria) suspensos num letreiro que anunciava «Silêncio, este lugar é sagrado». Fui ao museu de cera, inaugurado recentemente, e, nas minhas confusões com os rituais, perdi o acontecimento icónico da procissão da virgem num mar de lenços brancos. Perdi o melhor para a fotografia e regressei estafado a Coimbra.

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