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Populismos há muitos

Nos dias em que escrevo esta edição paira a incerteza sobre o resultado das eleições francesas e consequentemente sobre o futuro desta Europa comunitária a que nos habituámos nos últimos anos.
No receio de que as alterações que possam vir a acontecer não se traduzam numa melhoria das condições de vida da generalidade da população, e que ameaças tenebrosas desencadeadas pelos nacionalismos ganhem expressão, vivemos um momento que só não inquietará quem anda totalmente distraído do mundo.
Neste novo mundo de frágeis ligações à realidade do outro, caem por terra muitos dos tradicionais alicerces da nossa democracia e ao mesmo tempo da nossa inteligência coletiva. Um palavrão tomou conta do nosso léxico: populismo. Por incrível que pareça aos olhos de criaturas racionais, o populismo não só tem lugar cativo na retórica política e partidária como determina muitas das decisões que influenciam/condicionam/determinam a nossa vida enquanto cidadãos e comunidade.

Sejamos sinceros: nenhum político em exercício poderá prescindir da sua quota-parte de demagogia e de populismo.
Virando esta constatação para a nossa realidade local e na altura em que se dão os primeiros passos da pré-campanha para as eleições autárquicas, coloquemos a questão: até que ponto pode/deve um candidato desenvolver esse lado menos claro da luta política/partidária que se gera nas campanhas eleitorais?
Quando se atinge o ponto q.b. ?

Um ponto sensível desta equação, para mim, prende-se com a questão dos subsídios e apoios concedidos. Invariavelmente os executivos no poder são criticados por concederem pouco. É sempre “pouco”.
Poucas vezes se levantam as questões fundamentais: é equilibrada e justa a distribuição desses apoios? O “pouco” é utilizado para o fim a que se destinava? As entidades que recebem esse “pouco” desenvolvem ações que mereçam esse apoio? As entidades que recebem esse “pouco” precisam dessa importância?

Há dias li uma crítica à Câmara Municipal, por conceder a uma instituição social uma verba de 3.160€ anuais. “Inqualificável”, dizia a crítica. Ou seja: “pouco”. No entanto, essa instituição apresenta nas suas contas um saldo financeiro na ordem dos 900 mil euros. Para quem tem uma situação financeira tão confortável, uma verba de três mil euros poderá ser “inqualificável”? Ou seja, ainda menos do que pouco?

Entenda-se que não estou a defender que a autarquia deve retirar o apoio à instituição, que isso fique claro. O que aqui coloco em perspetiva é a necessidade de se avaliar as instituições e as suas necessidades com um olhar objetivo e rigoroso, baseado em números e em padrões de qualidade bem definidos, e não cair na tentação de fazer avaliações baseadas em estados de alma, ou necessidade de criticar a ação de um ou de outro executivo da Câmara, da Junta, ou opositor partidário.

Pouco, suficiente ou muito são conceitos que podemos discutir indefinidamente sem alcançar nenhum acordo satisfatório. A teoria marxista, muito caída em desuso, tem uma máxima que continua a fazer muito sentido: “a cada um consoante as suas necessidades”.
Aos políticos, àqueles a quem confiamos a responsabilidade de gestão do nosso município e àqueles que legitimamente querem ocupar esse lugar, o que se lhes exige no “abc” da gestão pública é que tenham em conta que estão a lidar com dinheiros públicos que devem ser distribuídos segundo critérios transparentes, públicos e justificados objetivamente. E já agora publicados de forma visível e de fácil acesso.

Os excessos de linguagem, as “saídas” irrefletidas, os lapsos linguísticos e tudo aquilo que constitui o sal e a pimenta de uma luta política, partidária e com contornos também pessoais (especialmente nas autárquicas) são recorrentes nas campanhas eleitorais e todos aceitamos essa norma. Mas não esquecendo que têm sido a demagogia, as promessas não cumpridas, a crítica pela crítica que têm afastado os cidadãos de uma maior intervenção política e social.
Populismos há muitos. Não aceitemos nenhum.

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