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Conferência sobre a Liberdade de Imprensa

No dia 3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, Paula Bravo, diretora do Terra Ruiva, e Elisabete Rodrigues, diretora do Sul Informação, participaram numa Conferência sobre este tema, organizada pela Biblioteca Municipal de Silves.
O moderador foi o professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve, António Guerreiro.

Elisabete Rodrigues, António Guerreiro, Paula Bravo

“Liberdade de Expressão, Expressão da Liberdade” foi o tema da intervenção inicial de Elisabete Rodrigues, que se concentrou nos números de organizações internacionais, como os Repórteres sem Fronteiras, que atestam as crescentes dificuldades que se colocam à liberdade de imprensa.
Quanto a Paula Bravo, a sua intervenção partiu de uma pergunta “Há liberdade na proximidade?” e apontou depois alguns dos constrangimentos que se verificam no caso do jornalismo de proximidade.
Já no período de conversa, que se estendeu ao público que se encontrava na sala, ainda que em pouco número, outras questões se levantaram, como as estratégias para se manter a independência perante os poderes económicos, sociais e políticos. Particularmente focada por Elisabete Rodrigues foi a situação de crise que se abateu sobre a imprensa em todo o mundo e que em Portugal tem levado a quedas drásticas das tiragens dos jornais e ao desaparecimento de muitos títulos, nomeadamente dos regionais.
A necessidade de ser feita uma reflexão e discussão sobre os temas ligados à imprensa e à liberdade de imprensa, na medida em que esta se relaciona diretamente com a existência da própria sociedade democrática, foi também evidenciada por António Guerreiro.

 

 

 Texto da Comunicação: “Há liberdade na proximidade? “

Boa noite, agradeço à Biblioteca Municipal e ao Município de Silves o convite e a presença de todos.
Desde que aceitei este convite, pensei em estatísticas, em tubarões, no Rui Reininho, na autocensura, em pequenos-almoços no café, em almoços, ódios de estimação, família, amigos, liberdade, jornais, sobrevivência, poder, capacidade de mudar o mundo, vontade de mudar o mundo, lembrei-me de mim a escolher esta que é uma das mais belas profissões do mundo, das mais difíceis e complexas, das mais entusiasmantes, das mais perigosas e com maiores índices de stress. Pensei no código de ética dos jornalistas e nas palavras que são a base de tudo isto: objetividade, rigor, verdade, contraditório. E pensei nas palavras que acrescentei ao meu livro de estilo: justiça social, igualdade, luta, verticalidade, espírito independente, empatia pelo ser humano.

E claro, liberdade. E imprensa- jornais que foi sempre nesse sítio que me imaginei e onde quis estar.

Gosto imenso de fazer o Terra Ruiva. O que eu andei para aqui chegar, não foi pouco, mas cá estou, há 17 anos feitos em abril. E nesta conferência, com esta comunicação a que dei o título “Há liberdade na proximidade?”.
Ao longo do meu percurso profissional já me encontrei em circunstâncias muito diferentes no tipo de proximidade que estabelece com o leitor, com o anunciante, com as fontes de notícias, as pessoas que entrevistamos.
Mas desde há 17 anos que me debato com uma grande preocupação: não deixar que a proximidade me limite a liberdade ou que me faça perder a objetividade nem o sentido de negativo ou positivo.
E é fácil? Eu diria que um jornal é sempre um jornal, qualquer que seja o local do mundo onde é feito. Mas há duas diferenças quando se trabalha num jornal local. A primeira: é muito difícil ir ao café e encontrar a pessoa que se criticou ou elogiou no dia anterior. A segunda: é muito fácil encontrar no café a pessoa que se criticou ou elogiou no dia anterior.

A proximidade é a maior riqueza do jornal local. A proximidade é a maior armadilha para o jornalista.

Já me aconteceu várias vezes, ó Paula, o que foste dizer do meu pai? Do meu primo? Da minha mãe? Do meu clube? Do meu partido?
Criticas? – é porque és contra.
Elogias ? – é porque és a favor.
Não criticas? – é porque és a favor.
Não elogias? – é porque és contra.

Uma pessoa que eu não conhecia, um dia armou uma zaragata comigo, num local público. Eu tinha escrito uma notícia sobre a digressão da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. A imagem passava por vários locais, eu limitei-me a colocar alguns. E porque é que pós o sítio tal e não pôs a minha terra que é muito maior?- dizia-me essa pessoa, toda zangada. E às tantas, sendo um membro destacado na comunidade, perguntou mesmo: Foi para me prejudicar?
Este lado pessoal da notícia é extraordinariamente vincado no jornalismo de proximidade que fazemos. É muito bom, conhecemos muitas pessoas, muitos assuntos, é muito enriquecedor. É também muito complicado.
Como lidar de uma forma isenta com as pessoas, com os factos que nos apresentam, com os assuntos que protagonizam? Muitas vezes são nossos amigos, colegas de escola, familiares, familiares dos amigos, amigos dos familiares… vivem na nossa rua, vamos à mesma praia, ao mesmo supermercado.

Pode haver liberdade na proximidade?

Temos a proximidade com as pessoas, a proximidade com as associações, a proximidade com os dirigentes, com os autarcas.
A esta questão junta-se uma outra- o jornal vive num local delimitado / concelho de Silves/, com escassos recursos – como se pode alcançar um equilíbrio entre a liberdade necessária para se fazer um bom trabalho e a contenção necessária para não afastar as potenciais e as efetivas fontes de suporte financeiro?
Como trabalhamos num território muito delimitado temos ainda que gerir a nossa relação com as fontes de informação, sendo que temos no concelho um grande “produtor” de notícias, que é Câmara Municipal… Tem um gabinete de informação umas quatro ou cinco vezes maior do que a redação do Terra Ruiva. Qual o espaço que estas notícias podem/devem ocupar no jornal e de que forma devem ser trabalhadas?
E depois claro, se é ano de eleições, como este, ainda se complicam mais estas relações.

Eu digo sempre: sendo tão pequeninos, só temos uma maneira de nos defendermos, temos de escrever com o máximo de rigor, o máximo de liberdade e sermos corretos quanto ao que se publica. Nem dobrarmos a espinha, nem nos pormos em bicos de pés.

E temos de estar preparados para ouvir críticas e reparos de todos os lados. O nosso trabalho é todo ele público, exposto, há quem goste, quem não goste, justamente ou injustamente.

E isto leva-me à outra questão: E autocensura?
Há dias fui assistir a uma assembleia de freguesia em que o Terra Ruiva foi acusado de ter publicado uma notícia pouco transparente e abusiva. Isto foi dito pela pessoa que se recusou a dar a sua versão dos acontecimentos. Vim de lá tão cheia de um sentimento de injustiça que tive de esperar uns dias para publicar a notícia, simplesmente pensei que não conseguiria ser rigorosa.

Portanto, isto é complicado, e mesmo quando somos o mais objetivos possível. Aconteceu comigo, faz agora um ano, publiquei uma notícia que praticamente se limitava a transcrever o comunicado do Tribunal de Contas a propósito de um caso que envolve os anteriores presidentes da Câmara de Silves. Como era um caso delicado, não acrescentei nada ao comunicado, mas mesmo assim quando a publiquei no grupo de Facebook de Armação de Pêra fui logo banida, nunca mais me deixaram entrar, e um dos colaboradores do Terra Ruiva que protestou contra essa censura foi também expulso, sem explicação…

E isto é uma coisa que acontece com alguma frequência: as pessoas ficam ofendidas com as notícias. Da minha experiência, em 99% das vezes não ficam ofendidas com o conteúdo, que não contestam, ficam ofendidas com a publicação da própria notícia.

Isto muito particularmente no caso das que ocupam cargos públicos, há quem tenha dificuldade em distinguir a pessoa do titular. E quem procure em todos os casos encontrar as causas ocultas que têm forçosamente de existir. A tua agenda, ou a agenda do teu partido, do teu clube, da tua associação, dos teus amigos, as eleições.

É por isso que ao começar esta intervenção vos falava de ódios de estimação. E de almoços dos quais fujo a sete pés… E do Rui Reininho. Uma vez li um texto em que ele falava da dificuldade em ser uma estrela. Isto é, por mais famoso que fosse, assim que ia ao bairro onde cresceu, deixava logo de ser o cantor famoso, passava logo a ser o irmão de fulano tal, o tipo que tinha apanhado da professora quando estava a fumar na escola, o gajo que tinha borbulhas e que não sabia dançar… no nosso bairro, dizia o Reininho, nascido e criado num bairro bem típico do Porto, não é possível ser estrela.
E é assim que eu vejo a situação do Terra Ruiva. Com a diferença que nós nunca saímos do nosso bairro. E é cá que vamos fazendo o melhor que podemos. Com a ajuda de muitos colaboradores, amigos, familiares, leitores.

Cá vamos andando, como o meu irmão me dizia há uns tempos, como um tubarão. E ele: o jornal tem de ser como um tubarão, não sabes que os tubarões, mesmo quando dormem, estão sempre em movimento? É como o jornal, tem de estar sempre em movimento, nunca pode parar, tem que ter sempre notícias.
Nunca mais em esqueci desta comparação. E às vezes até me acho um bocadinho tubarão. Tem de ser. Um jornalista sem um bocadinho de tubarão é o quê? Um batedor de palminhas?

Há uns meses entrevistei uma dirigente partidária que me disse, a propósito da luta política, nós não estamos cá para bater palminhas. Se tiver que bater, bato, mas nós não estamos cá para bater palminhas. Gostei dessa frase. E acredito nela.

Mal vai o jornalista que é um batedor de palminhas.

Agora o que não há dúvida é que esta é uma profissão difícil cada vez mais ameaçada na sua integridade e é também isso que nos traz hoje aqui a esta reflexão sobre o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa….
Os relatórios que são feitos por organizações internacionais falam de ameaças sem precedentes contra jornalistas e meios de comunicação nas principais democracias, já não estamos a falar só de ditaduras, agora falamos de “donos de jornalistas” e de “donos dos donos dos jornalistas”.

Em termos gerais, somente 13% da população mundial goza de uma imprensa livre
O que nos indica que nada está ganho para sempre, nada está garantido. A liberdade de imprensa e a liberdade de expressão estão seriamente ameaçadas por uma grande quantidade de fatores. Eu apontei aqui alguns mais diretamente relacionados com o tema da minha intervenção “Há liberdade na proximidade?”.

A minha resposta é uma:

Há liberdade enquanto lutarmos por ela. Diariamente. Sem liberdade de imprensa não há liberdade. E sem liberdade não há imprensa. Apenas palminhas. Apenas com palminhas não há justiça. Nem progresso social, nem sentido para esta conferência.

E só para terminar, como nos jornalistas há sempre um pouco de loucura e de poesia, gostaria de vos ler um poema de Miguel Torga chamado:

Liberdade
– Liberdade que estais no céu… / Rezava o Padre-nosso que sabia / a pedir-te, humildemente / o pio de cada dia
Mas a tua bondade omnipotente / nem me ouvia.

– Liberdade que estais na terra… E a minha voz crescia/ de emoção.
Mas um silêncio triste sepultava / a fé que ressumava da oração.

– Até que um dia, corajosamente, / olhei noutro sentido e pude, deslumbrado/
Saborear, enfim, / o pão da minha fome.
Liberdade que estais em mim, santificado seja o vosso nome.

Paula Bravo
04 de maio de 2017

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