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Memórias: Entrevista a Esmeralda Lebre que fala dos tempos em que esteve presa em Caxias

Memórias: Na edição nº 67,  de abril de 2006, o Terra Ruiva publicou uma entrevista a Esmeralda Vicente Lebre, residente em Alcantarilha que nos falou do tempo em que esteve presa em Caxias e dos tempos de perseguição e opressão que viveu no Portugal de antes do 25 de Abril.
Uma Memória que se recupera no 43º aniversário do 25 de abril de 1974.

 

“A minha luta nasceu do meu sentido de humanidade”

32 anos decorridos após o 25 de Abril, o Terra Ruiva entrevistou Esmeralda Vicente Lebre, algarvia que vive actualmente em Alcantarilha, sobre a sua experiência de vida que antes da Revolução a levou a conhecer a perseguição política, as ameaças constantes, a prisão de Caxias e os interrogatórios da PIDE.
Fale-me da sua história, pedi a Esmeralda Vicente Lebre. E a resposta não podia ser mais reveladora do carácter desta mulher, quando me disse que a sua história nada tinha de especial, pois foi, na sua essência, a história de muitas mulheres que se empenharam na luta por melhores condições de vida e liberdade.

Esmeralda Vicente Lebre

Para Esmeralda Lebre, a acção “política” começou quando tentava matar a fome de crianças cujos pais estavam presos. Para o regime de Salazar, um gesto assim era política – e daquele género que era proibido. Destes simples gestos a uma militância activa no PCP, foi um pequeno passo. Seguiram-se as perseguições da polícia, a prisão, depois a fuga para França onde nunca deixou de colaborar na luta que lá se travava para ajudar os que permaneciam em Portugal.
São memórias de uma vida intensa que transparecem desta conversa, feita por vezes com pausas carregadas de sentido, onde se faz tempo para conter a emoção, a lágrima teimosa, e onde transparece um orgulho discreto mas profundo de se ter tido a atitude correcta, porque não seria possível fechar os olhos ou iludir a consciência perante o Portugal de fome, miséria e opressão.

D. Esmeralda, conte-me um bocadinho da sua história.
A minha história não foi mais nem menos do que a de tantas mulheres do povo. Por isso, se não se importasse, tinha pensado em contar a história do povo de Aljustrel. Sou algarvia, mas fui para lá ainda pequenina e preferia contar a história do povo de Aljustrel nos anos 50, que foi lá que fui presa, como tantas outras mulheres e homens.
Aljustrel tinha um povo rural e mineiro, era só o que havia nesse tempo, as minas e o campo. As minas eram muito ricas mas os beneficiários eram belgas, era para eles que ia toda a fortuna, os mineiros ganhavam um salário de miséria. As mulheres ficavam em casa, só saíam para trabalhar no campo, quando havia as mondas e as ceifas, e no resto do ano não tinham nada. Tinham casas de filhos e a maior parte eram analfabetas. Acontece que as pessoas são como as formigas, quando as pisam muito voltam a turquês, e os mineiros começaram a protestar que não ganhavam o suficiente para comer e com os protestos dos mineiros vieram as prisões, é evidente. Aparecia a carrinha da PIDE, ficava à boca dos poços, onde as pessoas desciam e subiam, e conforme os homens iam subindo do fundo, iam para dentro da carrinha e eram presos. Os senhores eram tão cobardes que era assim que funcionava. Quando a carrinha estava cheia iam embora, e ao fim de três ou quatro dias vinham com outra carrinha e assim sucessivamente.

As mulheres, umas tinham lá os maridos, outras tinham os pais, outras tinham os vizinhos, começaram a pensar, então os homens vão presos, como é que isto é? E começaram a ir para a rua em manifestações. Faziam-se manifestações de mulheres porque os homens iam presos.

Foi uma época em que havia sempre manifestações na rua, a guarda de Aljustrel já não era suficiente chamavam a polícia de Beja e de Odemira e aquilo era um pandemónio na rua. Houve uma altura a que a Aljustrel chamavam o “pequeno Moscovo”. Mas nada se fazia brincando porque tudo aquilo nascia da miséria e da necessidade, e da revolta.
Os mineiros eram os únicos que trabalhavam todo o ano, os camponeses, que eram sobretudo mulheres, só ganhavam alguma coisa quando havia trabalho no campo, e quando não tinham aqueles trabalhos temporários, ficavam em casa, a fazer o trabalho de casa e a ouvir os filhos a chorarem com fome. Mesmo trabalhando todos os dias os mineiros mal tinham dinheiro para dar de comer aos filhos, mas quando iam presos ficavam casas de família sem ninguém que trouxesse dinheiro para casa.

E é por isso que não gostava de contar a minha história, porque eu não estive sozinha nesta luta. O que fazíamos? Pedíamos aos vizinhos para darem de comer às crianças, fazíamos rifas, nas feiras e mercados fazíamos tômbolas, para arranjar dinheiro para ajudar aquelas pessoas, porque nós também não tínhamos para ajudar.

Muitas vezes não tínhamos nem para nós, havia alguns que não passavam fome mas também não tinham de sobra. E então começámos a ser vistos como políticos, era isto a política dos anos 50, não era mais do que dar de comer aos vizinhos que estavam com fome. Para outros foi muito mais, mas para a maioria das pessoas era apenas isto.
Entretanto, os senhores da PIDE começaram a ver o que se passava em Aljustrel, estavam sempre por lá. Mas o que era pior era aquelas pessoas que se vendiam por um copo de vinho, a quem eles pagavam para observarem os vizinhos, eram esses que levavam à polícia as informações sobre as actividades do povo, os nomes, o que faziam e diziam. Entretanto, havia também as guerras coloniais e tudo isto fazia com que tivéssemos que nos mexer, fazia andar as pessoas mais activas, mais conscientes, ou mais humanas, simplesmente. Para mim era assim, a minha actividade e a minha luta nasceu desse sentido de humanidade.

Quando e como começou a participar na luta dessas mulheres?
Aquilo era espontâneo, foi assim que comecei. Mas há talvez outra resposta É que eu na minha casa ouvi desde pequena falar dos comunistas e, nesse tempo em que era nova e que ouvia falar nisso às escondidas, pois os meus pais falavam às escondidas, pensava que os comunistas eram uma coisa excepcional que iam cair do céu para salvar o mundo e comecei a interessar-me pelo comunismo como uma coisa assim; um milagre que ia chegar e que ia salvar o povo. E à medida que fui crescendo fui-me apercebendo e fui-me interessando, talvez porque sempre ouvi falar em casa.

Os seus pais eram algarvios?
Os meus pais eram algarvios que foram para o Alentejo quando eu tinha três anos, e fui lá que vivi, que casei, tive os meus filhos e fui presa.

Eu fui presa em 1963, tinha dois filhos pequeninos mas eles não se importaram… eu adivinhava que podia ser presa, nessa noite tinha havido muitas prisões e já tinha visto, na minha rua, uns senhores esquisitos. Nesse dia de manhã, eram mais ou menos sete horas, vi que estavam à esquina.

E houve uma vizinha que tinha ido à água, nesse tempo íamos aos poços, que passou por eles que lhe perguntaram onde é que eu morava. E ela passou pela minha casa e ia dizendo assim, “eu sei lá onde é que mora a Esmeralda, não sou polícia de investigação”, ia falando assim alto, sozinha, para eu ouvir. Assim fiquei sabendo que era por mim que lá estavam. Depois ao fim de um bocadinho fui olhar e já não os vi.

Nessa altura, fazia bolos em casa e ia vende-los à praça todos os dias, e pensei, eles estão aqui por mim, agora foram-se embora mas voltam. Tinha consciência de que andavam atrás de mim, e para evitar a minha prisão, o partido (PCP), já me tinha proposto para ir para a clandestinidade. Eu não pude aceitar porque tinha dois filhos pequenos e se fosse para a clandestinidade tinha que os deixar. O que eu pensava é que se fosse presa eles ficavam sozinhos na mesma, mas algum dia eu havia de voltar, não era como ir para a clandestinidade. E por isso, quando tinha os bolos prontos para ir para a praça, peguei no tabuleiro e fui. Quando lá cheguei, eles estavam lá, à frente do meu lugar. E diziam um para o outro, “então ela veio ou não veio, dizias que não vinha”?… Era logo a provocação, “então dizias que ela não vinha, a mulher aí está”. Descarreguei o tabuleiro e eles levaram-me, os bolos lá ficaram em cima da pedra.

Como se sentiu numa altura dessas?
Imagine… imagine… aquilo dá carne de galinha, dá para a gente pensar em tudo.
Tanto mais que tinha consciência do que lhe ia acontecer?
Evidente. Eu sabia, e sabia que nessa noite tinham já levado mais de 20 pessoas, não sei quantos homens e mais três mulheres, tinham levado a carrinha cheia. Levaram-me para o posto da GNR e ouvia-os a falar, e diziam “pois, podíamos ter esperado com a carrinha, agora o que é a gente faz com ela”? Com “ela”, como se fosse… E responde o outro, “pois íamos esperar aqui com a carrinha cheia, esperávamos pelo amanhecer para o povo saber que tinha havido prisões e para se levantar o povo”! Portanto fora por isso, com medo do povo, que se tinham ido embora com os outros presos.

Entretanto, dois senhores levaram-me para o posto da GNR de Beja, onde estive o dia inteiro até à noite, esperando a hora do comboio e depois outros dois senhores foram comigo no comboio para Lisboa. Aí parece um filme mas é pura realidade, eu ia sentada num banco do comboio com os senhores, um de cada lado, com as pistolas apontadas nas minhas costas, diziam-me assim, se falas com as pessoas levas um tiro.
Que idade tinha nessa altura?
Devia ter 27, 28 anos…

E foi assim, fui de comboio para Lisboa, com duas armas apontadas às costas e fui para Caxias, estive lá quatro meses.

Como foi tratada?
Mal, começando pelas más condições da prisão e pelo desprezo com que nos tratavam. Não fui torturada como algumas das minhas colegas porque, foi o que deduzi depois e o que muitas colegas me diziam também, nessa altura foi um tempo muito quente, as prisões estavam cheias, a rebentar, e eles tinham falta de lugares e de qualquer maneira a intenção deles era ao fim de algum tempo irem buscar-me outra vez, como aconteceu, portanto não perderam muito tempo comigo. E devia ser isso porque assim que sai da prisão, passado pouco tempo voltaram outra vez para me ir buscar, só que eu nessa altura já não estava lá.

Portanto, nesses quatro meses que estive em Caxias iam buscar-me para interrogatórios, interrogavam-me e depois deixavam-me ficar numa sala… diziam que já me iam buscar, mas deixavam-me lá ficar dias inteiros, depois levavam-me para Caxias outra vez, pois os interrogatórios eram na António Maria Cardoso (sede da PIDE em Lisboa). E ao fim de dois ou três dias iam buscar-me outra vez e faziam o mesmo, e assim sucessivamente durante os quatro meses. Até que um dia foram buscar-me, levaram-me para a António Maria Cardoso, estive lá o dia inteiro e à noite mandaram-me embora.

O que lhe perguntavam nesses interrogatórios?
Queriam saber quem eram os meus “cúmplices”, com quem é que eu lidava, diziam que já sabiam tudo, “não vale a pena negares nada”, tratavam logo por tu, “não vale a pena negares que nós já sabemos tudo, é só para confirmar”…injuriavam-nos e falavam-nos dos filhos…”tens os teus filhos lá fora e se falares vais embora”…

Atacavam as mães pelo lado mais fraco…
E eram vulgares, eram vulgares.
E foi assim. Ao fim de quatro meses mandaram-me embora. Entretanto, eu tinha um irmão aqui em Pêra e viemos para cá, para tentar escapar à polícia, só que as perseguições continuaram. A PIDE andava por todo o lado e ainda por cima tinha aqueles cãezinhos de guarda que lhes levavam aquilo que eles não apanhavam. Portanto aqui continuou na mesma, e foi isso que levou a minha mãe começar a pensar em ir para a França.

Porque a minha mãe era muito perseguida, iam buscá-la montes de vezes a casa, levavam-na para o posto o dia todo, chamavam-lhe a “Maria da Fonte”.

A minha mãe era uma mulher muito activa, pequenina e magrinha, fazia bolos para vender, de manhã estava na praça a vender e à tarde fazia os bolos e por isso andava sempre com um avental branco e com as mangas arregaçadas. Os guardas iam buscá-la a casa e guardavam-na no posto o dia inteiro, sem que ela pudesse ir trabalhar, mas ela ia sempre com as mangas arregaçadas. E eles diziam, “já a Maria da Fonte aí vem”.
Mas por tudo isso, a minha mãe acabou por ir para França onde já estava uma sua irmã que também era perseguida, e para evitar que o meu irmão, que tinha então 17 anos, tivesse que ir para a guerra colonial. Era uma vida de grande luta, era o trabalho do dia a dia, eram as prisões, os filhos dos presos que tinham que ser socorridos, era a guerra colonial, eram as perseguições policiais, e a minha mãe acabou por ir. A seguir, o meu marido foi para a França, para a campanha da beterraba, com um contrato de três meses. Aquilo estava organizado de forma que quando o trabalho acabava o patrão ia meter os trabalhadores no comboio para virem para Portugal. Simplesmente o meu marido, que não sabia ler nem escrever e numa terra onde não conhecia a língua, entrou no comboio a mando do patrão e saiu na estação seguinte. E depois para Paris onde estava a minha mãe. Mais tarde fui eu e os meus filhos.

Em que altura vão?
Em 1968, em plena guerra dos estudantes em Paris …
Era outro mundo…
Era outro mundo. A minha maior surpresa e o meu maior encanto foi ir passando por uma rua e ver uma sede do partido comunista com uma bandeira pendurada, aquilo que no nosso país era tabu, mesmo para falar. Mas as lutas continuaram, voltadas sempre para o povo português. Lá havia outras pessoas que estavam organizadas, fomos conhecer caras novas mas a luta era a mesma, havia vários grupos de apoio aos jovens que fugiam da guerra, havia a Comissão de Solidariedade com os Presos Políticos que fazia actividades para mandar dinheiro para as famílias dos presos políticos, havia muita actividade contra a guerra colonial. Íamos para a rua, aos mercados, e tudo era contado às pessoas, o que eram as guerras coloniais e o governo português, fazíamos propaganda.

E nesses mercados onde as pessoas eram às centenas, nesses sítios encontrávamos também a PIDE. E eles diziam, quando fores para Portugal ganhas sol e sombra, chegaram a dizer isto ao meu marido…

O seu marido, Francisco Lebre, foi sempre um companheiro nas suas lutas…
As minhas lutas eram as dele e as dele eram as minhas. Isso foi uma coisa que já vinha de Aljustrel. Mas era difícil ser doutra forma, nesse tempo. Quanto mais a gente protestava mais eles prendiam, quantos mais eles prendiam mais pessoas protestavam.
Toda a gente acabava por ter algum familiar ou amigo na prisão…
Sim, e também porque as pessoas no Alentejo são muito solidárias. E nesse tempo as lutas eram tão evidentes que ninguém podia voltar as costas. Lembro-me uma vez de uma manifestação que vinha na estrada principal, era quase a vila inteira, e de repente apareceu a GNR, a cavalo, que nesse tempo andavam a cavalo, e apareceu com as espingardas apontadas, a mandar-nos parar. Eles diziam, “dispersem, dispersem, porque nós atiramos!”, houve uma voz na manifestação que disse, “não tenham medo que isso são balas de pau”, quando acabou de dizer isto deram-lhe um tiro na cabeça. O manifestante caiu aos pés do meu marido, saltou-lhe o sangue para cima das botas. Essas coisas não se esquecem. Outra vez, houve uma manifestação, só de mulheres, íamos direito à câmara e quando demos notícia apareceu a GNR de frente e de trás com os cavalos e as baionetas. A rua era estreitinha e nós encontrámo-nos encurraladas, no meio dos cavalos. Não podíamos ir para a frente nem para trás e eles à porrada com as baionetas. Houve uma senhora, que era do Norte e falava “axim” que levantou as mãos no ar, e dizia, “dispara se queres”, e o guarda cortou-lhe a mão com a baioneta. O sangue corria-lhe pelo braço e ela dizia “olhem p’ra mim, olhem pr’a mim, isto é um retrato do Xalazar”, com aquela pronúncia do Norte. É uma imagem que nunca esqueci. Era assim a luta do povo.

Quer dizer que começou com a luta espontânea mas a partir de certa altura passa a estar na luta organizada pelo Partido Comunista Português.
Evidente. Aliás em todas estas lutas estava o Partido (PCP), nada nasceu em vão.

Nessa altura quem não estava com o governo, estava com o Partido, e o povo só podia estar com o Partido, porque ninguém podia estar com o governo. Em toda esta luta, que muitas vezes nos parecia espontânea, havia a voz do Partido.

Com 19 anos já estava filiada no Partido. Uma vez, tive um funcionário do Partido na minha casa, nalguma casa tinha de ficar, ficou na minha. A minha casa ficava a duas casas do fim da rua e estava uma patrulha da GNR de cavalaria na ponta da rua.
E como se sentia com os guardas à porta e o funcionário do PCP lá dentro?
Seria idiota se não dissesse que tinha medo.

Era uma vida sempre vivida com medo
Sim, mas ninguém podia voltar as costas. Era assim que eu sentia, é evidente que sabia que o pior podia acontecer. Estava tudo previsto com o funcionário do partido. Eram casas baixas, quintal com quintal. A palavra de ordem era essa, se eles vierem bater à porta, tu saltas o quintal, o que era preciso era que não o encontrassem lá.
Passou algum susto maior?
Sim, uma vez, por uma simples manifestação, no 1º de Maio, ou no Dia da Mulher, não me lembro bem. Era proibido comemorar essas datas mas nós fazíamos as coisas com uma simples tirada de foguetes. Só iam homens que faziam o seguinte, levavam os foguetes para pontos diferentes e faziam-nos rebentar à mesma hora. Numa dessas vezes houve um grupo que saiu da minha casa, com as canas debaixo da samarra e uma vizinha viu-os e passados uns minutos ouviu-se rebentar os foguetes. Por azar um desses homens que levava as canas escondidas, deixou a cana encalhar na samarra e o foguete rebentou-lhe na mão. E ele não disse nada a ninguém, não podia, e aguentou as dores, e no outro dia foi trabalhar para a mina e ao fim de um bocado de lá estar começou a dizer que se tinha ferido com a asa do gasómetro, tinha o dedo todo aberto. Assim já tinha uma justificação para a ferida, já se podia ir tratar. E toda a gente falava dos foguetes, e a tal vizinha disse que os tinha visto sair da minha casa, e nesse dia tive a GNR a “guardar”a minha casa. Depois o meu marido zangou-se com a vizinha, dizendo-lhe que ela tinha visto mal, meteu-lhe um grande susto, dizendo que ia dar parte dela por andar a inventar, e ela calou-se, mas não se deve ter calado tanto quanto isso, porque eles estiveram junto à minha casa o dia inteiro. Mas nessa altura não me vigiavam só a mim, estavam sempre na rua, espiando as pessoas, ter a guarda à porta era uma constante.
Tento imaginar como seria viver assim, sempre com medo, até dos vizinhos..
Ainda bem que as pessoas hoje não sabem o que é isso, ninguém pode imaginar o que é viver assim, mas é pena que não saibam o que se passou para não deixarem que se passe outra vez. Há coisas que eu não compreendo. Porque é que nas escolas se estuda a vida dos reis, que é a história de Portugal, e porque é que a história do fascismo e do Salazar não faz parte da história de Portugal? Está no fim dos livros e durante o ano escolar os alunos não chegam lá, os pais não contam, dá impressão que é tabu, uma realidade que todas as pessoas viviam nessa altura.

Sim, a sua história não é um caso isolado. Ainda há pouco estava a dizer que quando foi para Caxias a prisão estava cheia.
Estava cheia, eu fui para uma sala onde estavam dez mulheres e havia muitas salas como aquela onde eu estava, portanto é uma história que me aconteceu a mim e a muitas outras pessoas.
Nunca chegou tão pouco a ir a tribunal nem a ser acusada…
Não, simplesmente mandaram-me embora
Sem nenhuma ajuda para voltar para casa.
È evidente que não, eles não davam ajuda a ninguém, a minha sorte foi que tinha uma irmã que morava em Almada e ela desembrulhou-se para me ir buscar. Eu só tinha uns tostões, telefonei à minha irmã de um telefone da rua, e ainda por cima à noite. Mas de qualquer maneira agradeci não ter ficado para o outro dia de manhã… porque não são condições que se deseje a ninguém, mesmo a quem não seja maltratado fisicamente. Eles não se importavam com as pessoas, puseram-me na rua e a minha irmã foi-me buscar, com o dinheiro dela que também não devia ser muito. Com a ajuda dela voltei para Aljustrel, mas como disse antes, daí viemos logo para Pêra, porque eu pensava que eles voltariam logo a rondar-me a porta, e foi isso que aconteceu. Mais tarde, estava já em França, telefonou-me a minha irmã a contar que a PIDE tinha ido bater à porta dela.
Isso não tinha fim, a perseguição.
Era assim que acontecia com muitas pessoas que iam presas. Na primeira vez estavam uns meses na prisão, depois mandavam-nas embora, e ao fim de oito dias já lá estavam à porta outra vez.

Às vezes demoravam mais uns dias. Mas a pessoa que ia presa uma vez tinha a certeza que mais tarde ou mais cedo voltava para a prisão.

Então estava em França quando se deu o 25 de Abril? Como se sentiu com as notícias?
Ainda hoje não consigo explicar.

Estava no trabalho quando uma colega me diz, “Esmeralda, há uma revolução em Portugal”. Então telefonei ao meu irmão que me contou o que se estava a passar. A minha primeira ideia foi vir logo nesse dia a Portugal.

Mas havia os filhos e o trabalho, que eu não podia deixar. Voltámos a Portugal só em Agosto de 1974. A nossa vontade, depois do 25 de Abril, era regressar definitivamente, só que os meus filhos não queriam vir. Nessa altura o meu filho tinha 19 anos e a minha filha tinha 15, já tinham muita idade para os obrigar a vir, e ainda eram muito novos para ficarem sozinhos, por isso tivemos de ficar, só regressamos definitivamente depois de estarmos reformados.

Reformados mas não parados…
Claro que quando a gente tem uma consciência politica e vê os governos sucessivos que tomam posse e que a vida está cada vez pior, é evidente que a luta tem de continuar. Para mim, através de uma organização como o Partido é que é possível melhorar. Agora lamento muito que a juventude não esteja mais informada.

Parece que a história do fascismo, dos presos políticos, da guerra colonial, é tabu. Isto foi a história de Portugal durante muitos anos e atingiu toda a gente, dos mais ricos aos mais pobres.

Houve muitas conquistas que se alcançaram com custo, com muito sofrimento, muitas lutas e até algumas vidas, conquistas como subsídios de saúde, férias, as oito horas de trabalho, a liberdade e vamos vendo que algumas se vão perdendo. Hoje não só não conseguimos novas conquistas, como também não conseguimos manter o que foi criado com tanto sacrifício. Quer-se dar a impressão que se as pessoas iam presas é porque se metiam onde não deviam, em coisas proibidas…

Eu digo francamente, eu hoje teria vergonha de olhar para os meus filhos se não me tivesse ocupado de outras crianças que como eles não tinham de comer, e socorrer outras pessoas que tinham tanta falta como nós, tinham mais, porque nós estávamos cá, e eles não estavam.

Talvez as pessoas não consigam imaginar a pobreza que havia nesse tempo, a falta de condições e as pessoas que viveram nesse tempo não gostam de falar sobre isso, há uma espécie de vergonha.
Por exemplo, não havia reformas, nesse tempo. As pessoas só deixavam de trabalhar quando já não podiam com os pés. Depois ficavam num cantinho à espera que os filhos lhes dessem um bocadinho de pão. Entretanto os filhos não tinham pão suficiente para os seus próprios filhos, mas eram obrigados a dar esse bocado de pão. O velho era mais uma pessoa que vinha partilhar o quê? A fome e a miséria. E ainda hoje há muita miséria e fome, às vezes mais perto da nossa casa do que nós pensamos. O Governo só se interessa pela parte financeira, o défice, o lucro e nós apertamos o cinto, os hospitais não têm condições, em vez de os arranjarem, fecham-nos, os centros de saúde querem fechá-los também, assim não se progride, não se vai para a frente.

32 anos de Abril… as lutas continuam?
As lutas continuam.

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