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Um homem, uma pasta de cabedal, uma pistola metralhadora, algumas granadas e um rádio

Às 03h25 do dia 24, um homem dirige-se sozinho à unidade militar da Força Aérea, no aeroporto de Lisboa. Leva consigo uma pasta de cabedal, uma pistola metralhadora, algumas granadas e um pequeno rádio.
No peito, o coração bate com força e na cabeça mil e um cenários atropelam-se, enquanto o homem tenta não pensar em nenhum deles, mas apenas na missão que tem de cumprir.
Abre a porta da unidade militar, sobressaltando os dois oficiais que dormitavam no serviço e que, apanhados em falta, se assustam com a presença do superior. Não há nenhum problema, sossega-os o homem. É só uma revolução que está a acontecer, tenho a unidade e o aeroporto cercados de tropas e não quero tiros nem confrontações. E a partir deste momento quem manda aqui sou eu!
Os oficiais acatam a ordem sem discutir.
O homem procura ouvir na noite o som das tropas da Escola Prática de Infantaria que deveria chegar ao local às 03h30, à mesma hora que estava combinado que seria divulgado o comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). Os minutos arrastam-se. No rádio que o homem escuta, a programação continua sem interrupções e lá fora não há qualquer sinal de tropas.
O homem ouve o coração a saltar no peito, mantém as armas junto a si, e na sua cabeça visualiza o local onde há um avião no qual poderá fugir para a Argélia, se a revolução não tiver acontecido como estava programada… e treme ao pensar nas consequências para a sua família…
Meia hora depois, a esperança reacende quando a rádio passa o comunicado do MFA. Lá fora, na cidade de Lisboa, a revolução está a acontecer. Mas, ali, os minutos duram uma eternidade enquanto o homem sozinho, com a sua pasta, as suas armas e o seu rádio espera as tropas que chegam, por fim, às 04h30, uma hora depois do previsto.
Todos juntos, o homem e as tropas, avançam para a ocupação do aeroporto civil, detém elementos da polícia política – PIDE – que ali prestavam serviço, e praticamente sem incidentes controlam o aeroporto. É a altura do homem avançar para a torre de controle, interditar o espaço aéreo português para a aviação comercial e enviar para todas as unidades da força aérea uma ordem geral, proibindo a descolagem de qualquer avião militar.
Vou mandar para aí dois Boeing, carregados de Comandos, que vão tomar o aeroporto e prender-vos a todos, ameaça o general comandante da Força Aérea.
Vou mandar por canhões nas pistas, respondeu o homem ( e assim o ordenou) e se esses aviões vierem, mando abate-los!
E assim, o homem, que entrara sozinho no aeroporto para fazer a revolução, conseguiu neutralizar toda a capacidade ofensiva da Força Aérea, um elemento que desde as primeiras reuniões dos revoltosos tinha sido um grande factor de preocupação, por os seus oficiais não terem aderido ao movimento.

O homem era o muito jovem capitão Costa Martins, messinense, o único oficial da Força Aérea a aderir ao movimento revoltoso das Forças Armadas.
A noite é a noite de 24 de abril de 1974.

Em abril de 2017 senti necessidade de trazer a esta página a lembrança da conversa que tive, em 2003, quando o coronel na reforma, antigo ministro do Trabalho, membro da Comissão Coordenadora do MFA e do Conselho da Revolução me contou pormenorizadamente a sua memória do 25 de abril e dos dias que se sucederam.
Quando se comemoram as efemérides aqueles que as protagonizaram são, muitas vezes, remetidos a um lugar secundário relativamente ao momento histórico que os próprios construíram… e quanto mais tempo passa mais difícil se torna evitar que o 25 de abril se torne num dia bom para irmos à praia se estiver sol.

Mas em abril, repetidamente, estes editoriais do Terra Ruiva convergem para duas efemérides que não consigo deixar passar em branco: o 25 de abril de 1974 e o aniversário do Terra Ruiva – que nesta edição comemora o seu 17º aniversário.

Às vezes penso, lá vais tu escrever sobre o mesmo, chatear os leitores… E pondero outros temas, assuntos polémicos, títulos atrativos. Mas chega abril e volto à revolução e à fundação deste jornal… dois acontecimentos que me parecem sempre ligados, entrelaçados, indivisíveis.

Feita a opção, não resta alternativa senão a de terminar também da maneira tradicional e mais sincera: com um grande agradecimento a todos os que batalharam e batalham pela liberdade e justiça social e a todos os que têm contribuído para que o Terra Ruiva possa igualmente percorrer esse caminho e se afirme também como um divulgador e defensor da sua terra e das suas pessoas.

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