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O Bispo de Silves- Álvaro Pais. Quem é?

É uma narrativa muito longa e complexa que iremos sintetizar, na compreensão de figura intelectual, religiosa e política do Bispo Álvaro Pais, que passou pela Diocese de Silves, entre 1333- 1348.
Intelectualmente lhe chamavam de “O Galego”, por seu nascimento, em Salnés, na Galiza -1275.
Álvaro Pais nasce num período muito conturbado: poder e religião. A Igreja estava dividida em dois blocos europeus: um bispo na Itália – Roma, outro em França – Avinhão. O embrião do grande Cisma do Ocidente.
Em jovem, Álvaro Pelágio (assim chamado) professa a Ordem de S. Francisco de Assis, frei franciscano. Os chamados Fraticelos, designação de certos reformadores medievais, seguidores de uma espiritualidade com tendências a sobrepor à Igreja visível, uma igreja espiritual, segundo o fundador S. Francisco, um Príncipe de Assis (Itália), despejado de todos os bens materiais, numa aproximação de Cristo, numa admiração popular, que os tratava por Fraticelli. O que desagradava a uma igreja de pujança, de poder. O frade Álvaro retira-se dos fraticelos, assim a vontade do seu senhor, o papa João XXII, de Avinhão.

Álvaro Pais, em gravura do século XIX, Biblioteca Nacional de Portugal

Frei Álvaro, da Ordem Mendicante, passará, em breve à ordenança de bispo. Assim, uma outra vontade do seu protector, João XXII, desrespeitando a origem de bastardia do seu pupilo, o papa de Avinhão sagra-o bispo, primeiro de Corona, que não seria aceite, vindo a sê-lo, em Silves. Entra na capital do Algarve, um bispo sob orientação religiosa-política, adversa ao reino de Portugal, com a sua obediência a Roma. O reino do Algarve, sempre num espinho na política de Castela, não aceitaria de bom grado a política de “usurpador “.
O Bispo Álvaro Pais, o galego, epíteto popular de que não se livrava, e que sem dúvida não conviveria de bem com a população de Silves e a sua diocese.
Prende conhecimento pelo novo reino cristão. Por Tavira, nesses retiros buliçosos e de inspiração filosófica e poética escreve as suas mais importantes obras: “Do Estado e do Pranto da Igreja”, no qual defende o primado da Igreja sobre o poder temporal, mais, ainda, a sua obra maior, Speculum regum –“Espelho de Reis”, obra dedicada ao rei de Castela, Afonso XI, mostrando sempre essa originalidade castelhana e de “provocação”, ao agrado e desagrado.

 

 

 

É o conceito de tirania, análise do autor a partir da tradição bíblica, passando por Plotino e Gregório de Nissa, até chegar ao sentido do espelho, na tradição franciscana, que trata também o “Espelho”, como um lugar de contemplações de virtudes e em contradições. É um trabalho já tratado na obra de S. Tomás de Aquino, em “De Régimini Principum”, do qual Álvaro Pais não se livra de plágio, segundo “Actas “ do 3.º Encontro Internacional de Estudos Medievais”, Rio de Janeiro – 1998.
Pelágio, o Galego, consultando a “ História Luso-Árabe”, página 312, de Garcia Domingues, edição de MCMXLV, um natural de Silves, um cidadão do século XX, nascido na antiga Chelb, 18/05/1910. Estudo que não se enquadra nos estudos mais recentes.

Sendo a consulta feita na reedição do Centro de Estudos Luso-Arabes de Silves- 2010. Vamos a uma breve leitura do texto: Capítulo VI- Silves Cristã, Post-Islâmica. Os bispos de Silves, Missão Histórica do Algarve- figuras notáveis da Silves cristã. Páginas 311/312. Teve bispos muito notáveis como D. Frei Álvaro Pais ou Pelágio, da Ordem Franciscana, foi um dos maiores filósofos portugueses da Idade Média ( ? ). Considerado por muitos como a maior cerebração medieval, superior, ainda, à de São Tomás de Aquino (?) .
Foi este bispo que teve que fugir de Silves por desinteligência com D. Vasco Lourenço .
Assim trata Garcia Domingues o filósofo e bispo Álvaro Pais, durante a sua estadia por Silves, o bispo que renunciou à doutrina de Assis, mas como homem portentoso, nessas variedades de carácter: filósofo, sacerdote, político, orador, escritor, admirador dos poderes, homem admirado e odiado, tudo o leva, e parece sentir-se bem no pequeno reino cristão do Algarve, mas sempre, nessa sedução a Afonso XI de Castela.

Foi escrevendo pelas terras da sua diocese algarvia. Os seus trabalhos, dizem alguns especialistas da época medieval, são antecipadamente maquiavélicos… Sabendo que o autor do célebre “ il Príncipe”, o conhecido borgiano e florentino, nasceu 194 anos depois do bispo Galego. Digamos que o “Espelho de Rei” e “O Príncipe” , são obras convenientes na imortalidade, para os seus autores.
Mas o bispo filósofo-político, em 1348, publica “Colírio de Fé”, onde condena os averroístas, os espirituais, os beguinos e as beguinas, os judeus e os muçulmanos.

Há quem conteste o bispo de Silves por Lisboa- Tomás Escoto, personagem de cujas ideias e disputas, ficou em memória do célebre “Colírio”, contesta as “heresias” de Álvaro Pais.
Indo à “História de los Heterodoxos Espanõles”- 1947, de Menéndez Palayo. Este historiador castelhano coloca em evidência a importância de Lisboa, nesses anos trinta do século XIV. A capital do reino de Portugal estava a par com alguns centros universitários europeus. A criação da “Escola” superior criada pelo rei D. Dinis, tornara-se um centro de conhecimentos e de disputas.
Menéndez Palayo, deixou-nos alguma impressões: “As Heresias“ de Álvaro Pais viviam-se e disputavam-se nas escolas europeias (como em Lisboa), por meados do século XIV. Sabemos que foi “Apostata Fratum Minorum” e “Pracdicatorium”, que se discutiu em Lisboa com o dito Pais in scholis decretalium, e que levou Escoto ao cárcere de Lisboa, a julgar pelos pontos de doutrina, que Álvaro Pais nele censura.
Tem certa importância o que a este respeito se lê no “Colírio da Fé”, contra as “Heresias”, que daí se deduzem duas coisas; a) o interesse que havia nas Escolas de Lisboa por estes problemas, em pleno século XIV; b) a difusão das ideias filosóficas dos evorroístas ,nessa época. Sabemos que Averróis foi autor de uma filosofia árabe, que se desenvolveu no mundo cristão, tendo muitos seguidores. Álvaro Pais era o seu contrário.

O bispo de Silves, Álvaro Pais, foi vivendo a sua diocese em filosofia, em autor, em bispo, em conflitos permanentes. Foi um homem de pensamento, de causa partidária de Castela. Viveu o seu tempo de Silves em conflito permanente no reinado de Afonso IV de Portugal. Sabemos das intrigas vividas nas cortes de Castela e de Portugal. Afonso IV, o de alcunha “O Bravo”, ganhou prestígio na guerra do “Salado” em que os reis Ibéricos derrotaram os Mouros. O rei de Portugal entra em litígio com o seu genro de Castela. Os súbditos portugueses apoiam o seu rei. Mas o bispo de Silves apoia o seu, o rei de Castela.
Hostilizado pelo clero local (cónegos) e população, que levaram a cidade de Silves a expulsar Álvaro Pais, da diocese, em 1348, que o papa de Avinhão, nessa sua autoridade, o elegera.

Álvaro Pais fixou-se em Sevilha. Um ano depois morre (1349). Está sepultado no Mosteiro de Santa Clara, de Sevilha, em túmulo jacente.

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