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André Guerreiro, A Juventude em defesa da tradição e da memória

Há alguns meses, o Terra Ruiva foi contactado por um dos responsáveis do projeto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, que procurava ajuda. Alguém que pudesse participar no seu projeto de recolha de músicas e tradições… Tinham já o contacto de um jovem de Messines que se prontificara a ajudar – “o André Guerreiro”.
“Então não precisam da nossa ajuda, que ele é mesmo a pessoa indicada”, foi a nossa resposta. E assim se viu, quando começaram a ser divulgados on-line os vídeos com o trabalho desse projeto. E num ápice, o André Guerreiro estava num programa da SIC, que deixou metade da Vila de Messines entre o choro e o riso e a dar entrevistas aqui e ali.

André Guerreiro
André Guerreiro

O André Guerreiro que diz dele próprio ser “mais conhecido do que o burro do cigano”, é uma pessoa em que se torna impossível não reparar quando se encontra num local. A nossa entrevista decorre na Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, onde o encontro a jogar às cartas com um grupo de três velhotas. Antes disso já teria percorrido todas as mesas com uma saudação, mais umas palavras amigas ao pessoal que se encontrava ao balcão e, envolvendo tudo isso, um riso contagiante.
O André, “do rancho” como também é conhecido, tem 20 anos, estuda em Beja “Culturas Regadas” com a intenção de prosseguir no curso de Agronomia. Uma boa parte da sua ainda curta vida tem sido passada de uma forma invulgar para uma pessoa da sua idade: a recolher “coisas antigas”.
Desde muito cedo, diz que começou a sentir-se atraído pelos objetos antigos, pelas histórias e músicas que ouvia, pelas tradições. A partir dos 15 anos começou a fazer um trabalho mais sistematizado, “gravando as pessoas antigas, que era uma pena perderem-se essas coisas”. Canções, lengalengas, histórias, tradições, relatos de vidas, tudo tem servido para esta sua recolha que inclui também objetos variados, vestuário, utensílios, fotografias é o que lhe dão e aquilo que, muitas vezes, evita que vá parar ao lixo…
Assim, quando o projeto “A Música portuguesa a gostar dela própria” lhe pediu ajuda para indicar pessoas que pudessem participar, não lhe foi difícil ajudar e também ele participar no trabalho, tocando o seu acordeão e cantando também.

As pessoas
O interesse e gosto “pelo antigo” tem em André, uma particularidade: o seu interesse estende-se às “pessoas antigas”. Talvez por ter “sido criado com a bisavó e com a avó” e ser “muito dado à tradição”, como conta, desenvolveu um gosto genuíno e sincero de gostar de conversar e conviver com pessoas idosas.
Frequentemente sai para visitar pessoas idosas que vivem sozinhas, ou outras que vivem mais isoladas ou que se encontram no lar para a terceira idade. É conhecido (e por vezes um pouco gozado) por gostar de conviver com pessoas idosas – “os velhos” – mas não se importa, e diz que lhe custa ver “os velhos” desprezados e abandonados, como se não tivessem já nenhum valor.
Mas foi assim que o jovem ficou a saber que, por exemplo, no Algarve, na altura da Sexta-Feira Santa não se podia torcer o esparto ( planta muito utilizada na região para fazer cordas e utensílios) porque ter sido usado para amarrar Jesus; ou que na Quaresma, por ser uma época de luto, não se podia cantar e então as pessoas, enquanto trabalhavam no campo, substituíam as canções por orações cantadas…

O Ranchoandre-guerreiro-capa-2
Com todo o interesse pela tradição, muito naturalmente a vida do André Guerreiro cruzou-se com o longo e prestigiado percurso do Rancho Folclórico de S.B. Messines que também tem desenvolvido um importante trabalho de pesquisa e recolha de tradições e de trajes.
Aí, além de membro do rancho, tem procurado também introduzir algumas alterações na forma de dançar e nos trajes usados, de forma a garantir mais autenticidade, muita da qual, diz, foi pervertida durante o Estado Novo. Aponta como um dos exemplos, alguma das roupas usadas por alguns grupos e que não se coadunam com a capacidade financeira das pessoas da época “as pessoas eram mais pobres, as roupas também eram mais pobres, mas os grupos não querem representar a pobreza”, explica.
O trabalho de André feito nesta área também não passou desapercebido a outro nível e foi convidado para ser Conselheiro Técnico da Federação Portuguesa do Algarve, função que cumpre com orgulho, na sua luta pela autenticidade do folclore.

O espólio
O espólio que tem recolhido é guardado com carinho e com todos os cuidados devidos, devidamente embalado e protegido. Por vezes, algumas peças saem para serem emprestadas ao rancho ou a outra entidade. Uma das possibilidades de mostrar algumas das coisas que possui, seria, à partida, o Museu do Traje, em S. Bartolomeu de Messines. Mas a ausência de dinamismo do museu e a falta de rotatividade das exposições leva a que até o espólio do Rancho Folclórico acabe por ficar, em grande parte, encerrado em caixas. Recentemente, o arquivo do Rancho sofreu um grande atentado, durante um assalto à antiga escola primária da Nora, onde tem a sua sede. André sonha com a “ampliação do Museu” e a sua transformação num espaço ativo, onde se pudesse contrariar “as pessoas que dizem que o Algarve está morto”.
Na sua voz e sorriso, há de facto uma grande autenticidade: “sou uma pessoa humilde, um moço que anda a pesquisar algumas coisas, que sabe algumas coisas com valor para o Algarve. Não quero fama, só quero mostrar o verdadeiro Algarve”.

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