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Contributos do Teatro para o Envelhecimento (Cri)Ativo

«Contributos do Teatro para o Envelhecimento (Cri)Ativo» é o título da dissertação de mestrado realizada pela ex-aluna da Universidade do Algarve, Nídia Marta Gonçalves. O trabalho de investigação relacionou duas áreas do conhecimento – o teatro e o envelhecimento, visando compreender os benefícios da prática da atividade teatral na população sénior.
Partiu do Projeto de Teatro Sénior, uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Silves, através de dois setores: ação social e cultura. Os principais intervenientes foram os elementos do Grupo de Teatro Sénior de Silves.

A autora, entendendo o teatro como uma proposta estratégica de intervenção em gerontologia social, teve como objetivos identificar os contributos desta atividade artística, em aspetos relacionados com a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida dos idosos. Na sua opinião, aquilo que mais diferencia o teatro, de tantas outras atividades recomendadas aos seniores, é a possibilidade que este oferece de trabalhar um conjunto tão alargado de fatores. Distingue-se da maioria das atividades que integram hoje os programas destinados à promoção do envelhecimento ativo, precisamente nessa medida. Porque trabalha diretamente um conjunto abrangente, quer de faculdades, quer de limitações do ser humano, que não é fácil encontrar noutra atividade de âmbito artístico ou desportivo. Talvez por isso, os resultados desta dissertação apontem benefícios em áreas tão diferentes, como a diminuição da ansiedade, a experiência criativa ou a esperança.

Na abordagem teórica refere o fenómeno do envelhecimento como uma «realidade inegável do mundo contemporâneo» e desenvolve os conceitos de envelhecimento ativo, bem-sucedido e criativo.

O conceito de envelhecimento criativo, relativamente desconhecido em Portugal, apresenta a criatividade como um novo paradigma para o envelhecimento, que destaca o potencial dos seniores ao invés dos seus problemas. É um conceito que permite pensar como é que as artes e a expressão criativa promovem a saúde no envelhecimento, salientando o seu papel na melhoria do funcionamento cognitivo e da qualidade de vida.

O trabalho esclarece as três tipologias teatrais que o sustentam – teatro comunitário; teatro aplicado e teatro sénior. Na secção dedicada ao teatro sénior percebemos que, apesar deste se revelar uma prática em crescimento, o debate teórico sobre os seus propósitos ainda é escasso, deixando subentendida a pertinência do estudo. Por fim deixa-nos uma reflexão sobre o campo das artes e da saúde, um campo multidisciplinar, que abrange todo o trabalho realizado através de práticas artísticas na área da saúde e em contextos comunitários.

A investigação decorreu em duas fases distintas, que correspondem ao processo criativo de duas peças de teatro. A primeira intitulada Gregório Mascarenhas, a Menina Juventina e o Marreco (2014) e a segunda, A Escola do outro Tempo (2015), ambas levadas à cena pelos participantes do Grupo de Teatro Sénior de Silves.
Ao longo deste período, a autora acompanhou o trabalho do grupo de diversas formas: colaboração e dinamização de sessões de prática teatral; realização de entrevistas aos elementos do grupo e aos responsáveis deste; registo audiovisual de ensaios e espetáculos. O estudo incidiu sobre o grupo de Silves.

No entanto, o Projeto de Teatro Sénior (Município de Silves) permitiu também a criação dos Grupos de Teatro Sénior de São Bartolomeu de Messines, Armação de Pêra e Tunes. E segundo a autora, o processo criativo dos quatro grupos de teatro sénior teve como princípios a valorização do património cultural imaterial (PCI), o acesso e a participação cultural e o envolvimento comunitário.
Os resultados apresentam contributos do teatro para o envelhecimento ativo/criativo, em sete âmbitos – Participação; Saúde Mental; Socialização; Cooperação; Envolvimento Pessoal e Compromisso com a Vida; Valorização e Reconhecimento; Superação. Todos incluem outros tópicos de desenvolvimento que evidenciam, por exemplo, a importância do estímulo da memória, do reconhecimento e do sentido da vida no processo de envelhecimento.

Este trabalho sugere que o teatro tem potencialidades para se afirmar como uma importante estratégia de intervenção no âmbito da Gerontologia Social. Porque o teatro, além de promover a saúde, o bem-estar e o envelhecimento ativo, pode ainda ser um instrumento para a desmistificação dos estereótipos associados ao envelhecimento. Deixando assim, o desafio de integrar a atividade teatral em futuros programas de promoção do envelhecimento (cri)ativo.

A dissertação foi realizada no âmbito do Curso de Mestrado em Gerontologia Social da Escola Superior de Educação e da Escola Superior de Saúde, da Universidade do Algarve. Efetuada sob a orientação da Professora Doutora Aurízia Anica.

E pode ser consultada na íntegra em: https://sapientia.ualg.pt/handle/10400.1/8646

A Autora | Nídia Marta Mendes Gonçalves

Nídia Gonçalves
Nídia Gonçalves

 

 

Nasceu em Portimão, no ano de 1979. Reside em Tunes, freguesia do concelho de Silves.

Mestre em Gerontologia Social e licenciada em Estudos Artísticos, pela Universidade do Algarve.

Exerce atividade profissional na ASMAL – Associação de Saúde Mental do Algarve, onde, entre outras funções, coordena o grupo de teatro inclusivo “Teatro do Sótão”.

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