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D. Inaicinha, uma vida dedicada a fazer o bem

Inácia Ramos festejou no dia 14 de outubro, o seu 100º aniversário. A sua festa juntou dezenas de pessoas, familiares, afilhados e amigos e várias individualidades, desde o bispo do Algarve ao presidente da União de Freguesias de Alcantarilha e Pêra.
Um conjunto diversificado de pessoas que se explica pela singularidade da mulher homenageada.
Uma mulher que, como a própria diz, sempre gostou de ajudar e que na vida seguiu sempre em frente, levada por aquela “qualquer coisa”, como “ uma força” que move as pessoas a quem a vida inquieta.

Inácia Ramos
Inácia Ramos

 

 

É na tarde de segunda-feira, já recomposta das emoções da festa de sexta-feira, que a D. Inácia Ramos me recebe na sua casa. É muito fácil encontrar a casa, é junto ao cruzamento para a Arrancada, e tem à porta um pendão, fora a explicação dada por João Palma, presidente da União de Freguesias de Alcantarilha e Pêra, que me telefonara a dar conta deste aniversário. Uma familiar, que também me ligara, acrescentou um pormenor importante às indicações da casa “é uma porta que está sempre aberta”.
À hora marcada, a D. Inaicinha, como todos a tratam, esperava-me no seu cadeirão, junto à janela, na sala onde agora passa grande parte do dia. Um pouco mais tarde virão as amigas que diariamente lhe fazem companhia e por ali se entretêm a conversar. E se alguma não vier, não descansará a D. Inaicinha enquanto não souber que está tudo bem com a faltosa, dirá mais adiante.

Mas a conversa começa com um aviso à entrevistadora. Tem que falar alto, que já “vejo pouco e oiço menos”…
Nada que impeça uma conversa fluída e sem falhas de memória durante mais de uma hora…

 

 

Nascida há 100 anos nas Fontes da Matosa, Inácia Ramos diz que “desde muito pequenina tinha vontade de ser alguém”. O avô “homem muito recto” não deixava que ninguém se aproximasse das netas, “era ver um rapaz ao fundo da rua e tínhamos que ir para casa”.

 

 

À vida limitada somava-se a desilusão de não poder continuar os estudos além da 4ª classe, como tanto desejava. Mas só o irmão é que teve autorização para estudar, “ia numa burrinha para Silves”.

Ainda assim, tinha uma vida protegida porque, apesar de ter nascido no campo, “nunca soube o que era trabalhar no campo, só aos 15 anos é que vi ceifar o trigo”.
Mas o destino pregou-lhe uma partida. O homem por quem se apaixona, Manuel Vieira, ( também conhecido como Antonino), “era do campo, tinha propriedades” e ela não lhe resistiu. “Fui atrás da boniteza”, confessa, “mas nunca me arrependi”, diz emocionada.
Nesta sua nova vida de casada, fez tudo o que havia por fazer no campo, “apanhar amêndoas e alfarrobas, almeijar os figos… só não ceifei”.
Na Arrancada, na casa onde hoje ainda vive, o seu pai instalou uma mercearia que o casal ficou, mais tarde, a explorar.
É aqui que começa a desenvolver uma vertente da sua ação social. Num tempo de grande pobreza para a maioria das pessoas, “fiquei com a mercearia e nunca neguei um pão a ninguém”. “Quando sabia que as pessoas estavam mal, mandava arroz, massa, pão, ainda ia pedir aos meus umas roupinhas que pudessem dar…”
“Uns ficaram devendo, outros pagaram, mas eu nunca recusei nada…”, diz.
Famílias inteiras da vizinhança e mais tarde pessoas das ex-colónias que ficaram instalados num aldeamento próximo, todos conheceram a sua bondade e dedicação. Mas também a sua força. Era frequente ser chamada para intervir em bebedeiras, discussões e conflitos familiares.
Conta que num caso de uns trabalhadores moçambicanos que ali residiram algum tempo, era muitas vezes chamada a intervir, quando eles bebiam demais. Um deles corria a chamá-la e quando Inaicinha chegava ao local onde eles viviam “estavam escondidos debaixo da cama, com vergonha…E diziam, senhora desculpa… depois de partirem ainda me escreveram muitas vezes…”
Perdeu a conta a quantos ajudou com os produtos da sua mercearia, sempre com o apoio do marido, que nunca se opunha a estas ações da mulher. Ainda hoje conta com “uns 24 ou 25 afilhados”, muitos dos quais em sinal de reconhecimento pela ajuda prestada.

A “médica” do povo

Uma outra faceta muito importante da vida desta mulher, foi a sua ação enquanto aquilo a que podemos chamar de “médica do povo”.
Sempre levada por aquela determinação de “fazer bem aos outros” e “fazer alguma coisa” com a sua vida, empenhou-se em fazer um Curso de Primeiros Socorros, ficando aprovada “ com 15 valores”, como sublinha. Era um tempo difícil, tempo de guerra “ o marido não queria, mas eu era muita amiga de socorrer as pessoas doentes, ia visitá-las, ajudá-las, dava injeções, tirava a febre, fazia tudo o que era preciso… “
Num tempo em que a assistência médica era tão escassa como os recursos de muitas pessoas, a toda a parte chegava a ajuda da D. Inaicinha, “montava-me no jumento, chegava a fazer duas ou três léguas, sem cobrar um tostão. Vinham os médicos novos, lá ia eu com eles, mostrar onde era, levar às pessoas, ajudava a fazer tudo, havia um acidente e lá estava eu…”
E de onde lhe vinha essa coragem, de uma mulher que diz não ser capaz de matar uma galinha? “A minha coragem não é para fazer morrer, mas para dar vida”.
Um sentimento que a amparou sempre em frente. Só deixou esta atividade quando as forças já não o permitiram.
“Eu tinha coragem para as coisas e tinha vontade de fazer”- resume. A par desta ação benemérita, organizava excursões, promovia festas… e mantinha “a porta sempre aberta” … e o telefone à disposição de quem precisava…
Hoje, aos 100 anos, recorda o que fez com sentido de humildade, que “não gosto de pessoas vaidosas”, e considera que “ainda hoje, se pudesse era o que fazia”. “Deus deu-me coragem para enfrentar dias bons e dias maus, mas eu tinha de lutar por melhores dias. A gente quando nasce já vem com o destino marcado, mas para além disso temos que fazer pela vida, o destino é muitas vezes aquilo que a gente faz”.

A Inácia Ramos, o seu destino desde cedo lhe pareceu muito claro: “eu vim para ajudar”.

E será suficiente esse sentido de missão na vida para se chegar até aos 100 anos? A D. Inaicinha tem mais duas sugestões: “gostar de viver e ter amigos”.

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