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Conversa de homens

Quando eu era miúdo ia ao barbeiro, cortar o cabelo. Nessa época, não tinha barba e nem tamanho para me sentar na cadeira de barbeiro. O barbeiro, que também cortava o cabelo, colocava uma prancha de madeira, sustentada pelos braços da cadeira de (e do) barbeiro, para eu e para os restantes clientes da minha estatura se sentarem. Imagino que a cadeira era sua, dele barbeiro, como o restante mobiliário e recheio da barbearia. O recheio, porque o invólucro (neste caso o imóvel) não sei, nem desconfio, de quem seria a pertença da barbearia. Nessa época, quando eu colocava os pequenos pés no assento lavável (suponho de napa) dos clientes adultos, para ficar com a cabeça ao nível dos restantes utentes, as barbearias eram exclusivamente frequentadas por homens. Era um lugar de homens, com conversas de homens, mas eu era um miúdo.

A (minha) barba nunca surgiu em quantidade assinalável e os barbeiros foram rareando e ficaram particamente extintos na cidade. Foi a fase das cabeleireiras de senhoras e de homens. Claro que não se vai a uma cabeleireira pedir para fazer a barba. É notório que as cabeleireiras tratam do cabelo como os barbeiros tratam da barba, da pêra (o corretor ortográfico está a assinalar erro, mas eu quero manter a ortografia anterior) e do bigode, que ainda são coisas de homens. Tudo isto é um contrassenso, porque os barbeiros não fazem a barba, verdadeiramente desfazem a barba, dado que fazer a barba é rapar a barba, exatamente o oposto de continuar barbado. O mesmo não se pode afirmar das pêras e dos bigodes, neste caso apara-se ou tira-se a pêra e o bigode, não havendo motivo algum para apanhar, dar ou levar um bigode.

Como as cabeleireiras não fazem a barba (nem as dos clientes nem as delas, neste caso não se aplica o paradoxo matemático do barbeiro da cidade), os barbados passaram a se barbear em sua própria casa, sem o apoio do barbeiro, com o advento do capitalismo consumista, utilizando giletes ou lâminas de barbear de plástico, naturalmente que não são de plástico as lâminas, mas toda a estrutura que sustem as ditas cortantes. Claro que, com a evolução da tal sociedade, os homens barbados e muito, pouco ou nada cabeludos passaram a fazer em sua casa a barba e o cabelo, não usufruindo da companhia do barbeiro nem das conversas de homens (em que naturalmente inclui o barbeiro e os outros homens). Das cabeleireiras de senhoras e de homens aos salões de cabeleireira nos centros comerciais foi uma evolução lógica, atendimento na hora sem muita espera nem conversa. O máximo em sociedade de consumo e o mínimo em reciprocidade humana.

Descobri recentemente um jovem barbeiro (o silvense Ezequiel) à moda antiga (fazendo os penteados mais modernos e atuais, ao gosto de freguês – parece uma frase de efeito (slogan), mas não é minha intenção) na baixa comercial da cidade de Silves – Barradas Barber (Barbearia Barradas) –, não é nenhum bárbaro, apesar do anglicismo barber. Da última vez que lá estive, falei-lhe da cena em que Charlie Chaplin faz de barbeiro, ao som da dança húngara n.º 5 de Johannes Brahms, no filme O Grande Ditador (o que, por pressuposto, não são conversas de homens) e recordei fugazes memórias das antigas barbearias da cidade.

É bom ter tempo e usufruir da permuta de ideias e vontades com os outros que ainda lutam por si e por uma cidade viva. Hoje, é barba e cabelo!

Nunca fiz, fico apenas pelo corte (possível) do (pouco) cabelo que ainda tenho.

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