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Um dia com o pastor

Terra Ruiva
Última Atualização: 2016/Out/Ter
Terra Ruiva
9 anos atrás
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O Sol dava as boas vindas entre a neblina matinal que pairava sobre os serros da Portela de Messines enquanto a brisa aprazível com aroma a outono tocava as nossas faces qual etéreas carícias de Éolo. No ponto de encontro, marcado para às 8h00 nas bombas de gasolina da Portela, iam chegando os participantes que aproveitavam para tomar o seu café e medronho, o tradicional mata-bicho da região.

O pastor, Rui, aguardava com a paciência de quem tem o tempo todo do mundo. A sua tez queimada espelha bem a vida de quem ao sol executa a sua arte.
Indicou-nos o local do curral: “fica ali para os lados do Monte Branco, perto de um contentor, vão lá ter que eu vou preparar os animais e depois vou pra lá”.

E assim foi, partimos então em fila indiana para o local indicado. Largámos as viaturas e seguimos um trilho de terra entre alfarrobeiras e amendoeiras. Percorridas algumas cem jardas, o ranger dos nossos passos ia sendo paulatinamente interrompido pelo berregar alegre e distante das ovelhas que indicava mais um dia de pastoreio. O seu odor particular invadia cada vez mais o nosso olfacto, era o prenúncio da sua proximidade. E de repente, num meandro do caminho irrompem dois cães que nos vêm dar as boas vindas, e logo a seguir, entre uma leve cortina de poeira e uma zona derrubada do valado, surge um rebanho de cerca de trezentas ovelhas.pastor-rui
O Rui apareceu acompanhado do seu cajado de zambujeira, moldado e acarinhado ao longo de quatro anos enquanto crescia na árvore, e uma funda de cabedal entrançado, cuja pátina não esconde o passar do tempo. Utensílios verdadeiramente indispensáveis na faina de um pastor. O estalo da funda, que relembra a alguma ovelha mais atrevida que as regras são para cumprir, afasta de imediato qualquer intenção menos correcta. Porque até nos animais a tentação brota e desperta os sentidos, e por vezes a cobiça de roer as folhas de uma árvore proibida ou vaguear para onde a erva aparenta ser mais verdejante torna-se irresistível. O fiel cajado, arma e amparo, está sempre à mão, pois nunca se sabe quando poderá ser convocado para afastar algum perigo que espreita.
O rebanho, encabeçado pela cabresteira, que é sempre fêmea, segue o seu instinto natural, que o leva rumo às melhores pastagens. Procura sementes, os pastos mais apelativos e alguma alfarroba esquecida entre as folhas. Os cães, sempre atentos, mantêm-no no rumo certo, de vez em quando o Rui solta um assobio a umas ovelhas mais aventureiras, e quando estas não respondem dá as indicações a um dos sete cães: “Vai de roda, passa além para à frente”, e num ápice lá vai ele conduzi-las de volta ao rebanho.
O sol já ia alto quando o Rui decidiu inverter a marcha e conduzir o rebanho até ao sítio onde normalmente as ovelhas bebem água de uns bebedouros que ele improvisou a partir de frigoríficos desusados. Informou-nos com uma ligeira gargalhada: “Se fossem as habituais banheiras, já as tinham roubado”.
Explicou-nos que durante os meses de verão o pastoreio é feito de manhã e novamente à tarde. “Por isso vamos parar e comer uma bucha. Eu trouxe um naco de presunto caseiro, queijo de ovelha e linguiça para comermos”. Tudo regado com um copo de cerveja gelada e boa disposição.
Enquanto merendávamos com o Rui, alguém alertou-o: “ Ó Rui repare nas ovelhas, estão a ir embora!” E ele ripostou: “Não faz mal, elas sabem o caminho.”
Despediu-se de nós e partiu rumo ao curral com o vigor de quem tem todo o tempo do mundo.

 

Texto: Jorge Correia

Nota: Este passeio decorreu no âmbito da programação das Jornadas Europeias do Património, organizada pela Câmara Municipal de Silves, através do seu Sector do Património. Uma das propostas tratava de acompanhar o quotidiano de um pastor.

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TAGGED:Câmara Municipal de SilvesJornadas Europeias do Patrimóniopastor
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