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Repensar a mobilidade

Assinalou-se há dias a Semana da Mobilidade, que abrangeu o Dia Europeu Sem Carros. Sessenta municípios aderiram em Portugal, entre os quais o de Silves, embora o relevo dado a esse dia fosse praticamente nulo, resumindo-se a um convite/apelo da presidente da Câmara para que os funcionários da autarquia abdicassem do uso do automóvel nesse dia.
Esta foi uma oportunidade perdida para pensar a mobilidade na cidade, sendo que esta é uma reflexão que urge fazer. Mais importante do que aderir a um dia sem carros, é a necessidade da autarquia pensar em como garantir e favorecer a mobilidade dos seus cidadãos.
Estamos num concelho com uma área territorial extensa e muitas áreas de edificação dispersas, servido por um sistema de transportes público caro e com muitas deficiências. Há vários anos que a Câmara criou um circuito de transporte paralelo, com viaturas municipais que transportam pessoas de zonas isoladas para as sedes de freguesia. Uma ajuda essencial a populações onde nada chega. Este é um esforço meritório e que merece continuidade e incentivo.

Mas e as zonas mais urbanas do concelho? Silves – por exemplo?
Numa cidade sem transportes públicos resta a alternativa do carro próprio. Andar a pé ou de bicicleta não é fácil, tendo em conta as características da cidade, com muitas inclinações, calçadas escorregadias, ruas estreitas e uma distância significativa entre as suas extremidades…
Para muitas pessoas, subir à Câmara Municipal tornou-se uma dificuldade. Se vier de autocarro tem de subir um bom bocado até ao edifício, se usar o automóvel só com sorte encontrará estacionamento perto. Os parques existem, na Zona Ribeirinha e no Sítio do Encalhe, mas experimente-se fazer esse caminho num dia de calor ou de chuva!…
E se depois de tratar dos assuntos na Câmara tiver de se deslocar às Finanças? E depois à Escola Secundária? E a seguir ao Tribunal? E à Junta de Freguesia? E se residir numa das zonas residenciais que se espalham ao redor da cidade e tiver de levar os filhos à escola? E ir fazer compras? E ir ao Centro de Saúde?
Sem transportes públicos internos, a cidade torna-se uma armadilha para quem nela vive ou circula. O cidadão muito dificilmente conseguirá efetuar a sua vida diária sem o auxílio do automóvel.
Assim, os mais pequenos e mais jovens ficam dependentes dos pais, os idosos ficam dependentes dos filhos, outros ficam quase ou mesmo reféns nas suas habitações. Pessoas idosas, frágeis ou com problemas de saúde mas que dispõem de alguma autonomia não a podem exercer, simplesmente porque moram longe e não têm força para percorrer alguns quilómetros a pé.

Falando de Silves não podemos esquecer os milhares de turistas que visitam a cidade, a partir das zonas onde são “largados” dos autocarros. Há visitantes que não podem subir a pé até ao Castelo, por motivos de idade ou de saúde e já tive a oportunidade de ouvir pessoalmente as queixas de algumas destas pessoas – a quem não é oferecida qualquer alternativa.

Os problemas da mobilidade dos cidadãos não se podem cingir à questão do uso do transporte particular em detrimento do transporte público. No caso do nosso Concelho, isto é flagrante. Criar em Silves um serviço de transporte público, com circuitos pela cidade e arredores, pensado para ajudar os que vivem na cidade e os que a visitam para turismo ou para tratar de assuntos oficiais, seria uma medida de longo alcance social e que faria a diferença na vida de muitas pessoas e sem dúvida na economia da cidade.

Há vários estudos que provam que a chamada “mobilidade inteligente” beneficia não só as pessoas mas também o desenvolvimento da cidade. Tornar a cidade acessível é um desafio que se coloca hoje a Silves como num futuro próximo se poderá colocar a algumas vilas no concelho.

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