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Roteiro para uma festa

A Feira Medieval terminou ontem. Um pouco longa para moradores, trabalhadores e demais locais. A marca Feira Medieval de Silves está consolidada, mas requer permanente inovação e arrojo. Hoje, saí para ir caminhar na passadeira vermelha (duas voltinhas) e já desmontavam o pano de muralha que se estendia junto a minha casa. No início do circuito encontrei um idoso da minha idade que é professor de educação física que aludiu ao começar da semana com movimento. A uns mil metros, duas funcionárias da autarquia extraíam a natureza bravia de um dos alegretes enquanto interagiam. Estive no facebook a ver a nossa presidente com o marido e os filhos. Nada mais ouvi, nem ouso inventar. Dois jovens exercitavam-se junto às margens do rio. Encontrei passeantes como eu. De regresso a casa já só restavam as três torres, nenhuma delas penso que seja albarrã.

O património histórico de Silves não termina no século XV, com o término da idade média que, na época, ninguém sabia como designá-la.

Coisas recentes de historiadores para significar uma idade entre duas outras idades. O final do século XIX e o início do século XX (até à consolidação do Estado Novo) é profícuo em acontecimentos históricos relacionados com o mundo do trabalho, particularmente com a indústria corticeira. A cidade operária e industrial, com os seus edifícios burgueses e operários, marcada pelas lutas republicanas e anarquistas. Um passado de compromisso com as gentes populares e com as lutas de classes, características do início do século XX. Encarnamos o povo e o seu labor em vez dos príncipes árabes e cristãos e respetivos abades e demais consortes.

Silves podia recriar na baixa da cidade, talvez em finais de junho, a cidade industrial, com as suas tabernas (como o Caixão à Cova) e farmácias (onde se discutia política), as sociedades recreativas, os acontecimentos sociais como o futebol (vestidos à época) e o cinema (com filmes da época, como A Greve de Sergei Mickhailovitch Eisenstein), as tipografias, os ardinas e os jornais, os engraxadores e o trabalho infantil, as bandas filarmónicas e os coretos, os bombeiros, as escolas, as manifestações operárias anarquistas (bandeiras vermelhas ao som da Internacional) e as condições laborais de homens, mulheres e crianças. Com exposições fotográficas, debates sobre os acontecimentos operários e republicanos do final da monarquia e primeira república, como a morte do operário corticeiro em 22 de junho de 1924 ou a tomada do quartel da Guarda Republicana, em 18 de janeiro de 1934.

Para os mais aristocráticos, reinventemos a visita de D. Carlos e D. Amélia à cidade (1897), incluindo a atual aristocracia silvense nos papéis de condes e condessas de Silves e demais familiares, presidente da Câmara Municipal e demais administradores do concelho, e a populaça correndo atrás das carruagens reais. As ruas iluminadas por balões venezianos azuis e brancos (cores da monarquia) e os trabalhadores dóceis das fábricas oferecendo trabalhos em cortiça com o retrato dos infantes a sua alteza real. Dois cenários, duas realidades da luta de classes em opção para a autarquia e para a cidade de Silves.

A cortiça é um novo produto, o seu design está na moda, o museu deverá reabrir.

O que falta para a festa?

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