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O sopro de vida para os territórios

Há algum tempo atrás li um artigo sobre uma iniciativa caricata por parte de um presidente da Câmara de uma vila italiana medieval chamada Sessia tendo em vista o combate da desertificação.

A solução encontrada por este autarca foi simples: incapaz de suturar a crescente diminuição da sua população e de promover a natalidade, o autarca emitiu um decreto a proibir a morte dos habitantes do seu concelho.

Obviamente que o decreto não teve grande impacto, até porque a morte geralmente não é um ato voluntário, mas o autarca admitiu que o decreto serviu para criar notoriedade para um estilo de vida mais saudável dos seus conterrâneos e para o problema da desertificação das vilas e aldeias italianas.
Vivemos num mundo cada vez mais urbano; em 2014, 54% da população mundial vivia num aglomerado urbano, projetando-se que este número suba para 66% em 2050.
Esta tendência manifestara-se de forma natural no último século, com os jovens a saírem para as cidades em busca de melhores empregos. Hoje, esta decadência do interior leva consigo para o esquecimento não só as suas gentes, mas também a sua memória, cultura e estilo de vida do território.

Trata-se de um problema crónico e difícil de combater. Não admira que, um pouco por todo o mundo, os decisores políticos locais tentem abordagens pouco ortodoxas e mais inovadoras. Recentemente surgiram as notícias de que o município de Loulé prepara-se para reconverter uma antiga fábrica de cortiça num espaço de incubação de empresas, no Ameixial, uma freguesia com pouco mais de 430 habitantes. É uma iniciativa louvável, embora se possa questionar se tal investimento terá impacto positivo na atracção de empresas, dadas as características do local.

No entanto, esta questão de desenvolvimento de zonas mais interiores não constitui uma história ausente de vitórias; podem encontrar-se abordagens de sucesso um pouco amiúde por todo o país. O mais gritante e mais divulgado é o de Óbidos, que se reestruturou e posicionou-se como município de cultura, literatura e de criatividade, atraindo várias empresas criativas e de design para o seu território. O município de Penela é igualmente interessante; implementou uma série de políticas locais de atração de empresas e instalou igualmente uma incubadora e uma “Fab-Lab”, uma oficina de fabricação pessoal, onde artesãos podem criar e desenvolver pequenos projetos que depois podem ser alvo de comercialização. Penela é igualmente sede de um fórum de economia, o que potencia a sua imagem enquanto destino de atração económica. Há inúmeros projetos interessantes de combate à desertificação um pouco por todo o país, com abordagens e graus de sucesso diferentes.
O combate pelas nossas vilas e territórios do interior não desarma e temos de repensar a nossa “ruralidade”, por assim dizer, diversificando e modernizando o nosso território. Só assim poderemos salvaguardar a nossa memória e o nosso estilo de vida, tão diferentes dos nossos parentes urbanos.

Cair para o lado e definhar é proibido, lá dizia o autarca de Sessia.

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