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O rei já não acode…

Há uns tempos dizia-me um amigo, a CDU está a fazer asneira na Câmara, a falar da Viga d’ Ouro, isso é passado, ninguém se interessa…
Achas, perguntava eu? Aquilo foi um caso de muitos milhões, com todo aquele dinheiro que foi gasto irregularmente tinha-se feito muita coisa… e a Câmara continua a pagar a dívida e os juros…
Asneira, repetia o meu amigo… E eu sem me querer convencer… Mas parece-me que o erro era meu… Ainda no mês passado escrevi uma matéria que, no meu ponto de vista, era interessante por revelar falta de transparência na atribuição dos apoios financeiros e na sua divulgação, por parte do poder local.
Estava convencida que as pessoas quereriam saber quanto é que a câmara e a sua junta de freguesia dão a esta ou àquela associação e quais os critérios que usam… que gostariam de saber se o dinheiro é repartido de uma forma equilibrada, justa e coerente com o trabalho apresentado pelas entidades. Pensava ainda que gostariam de saber se as verbas públicas são distribuídas com base em “axismos” e “amiguismos”…

Pois bem, caros leitores. O que se passou foi um “quase-nada”. Apenas a vereadora da Cultura da Câmara Municipal, Luísa Conduto Luís, entendeu informar que efetivamente a listagem dos valores atribuídos pelo Município se encontrava publicada, embora num sítio tão obscuro que a própria não conseguira encontrar quando pesquisara no site da autarquia. Disse ainda a vereadora que já dera indicações para que a situação fosse corrigida no sentido dos documentos ficarem visivelmente acessíveis.
A este gesto da vereadora – que se agradece – seguiu-se o silêncio por parte das juntas de freguesia… E por este motivo, volto à carga, como se costuma dizer. Teoricamente, todos somos a favor da transparência nas decisões mas isso tem os seus custos. Dói, às vezes, estarmos a tentar fazer o nosso melhor, como o faz a maioria dos nossos autarcas, e haver quem questione. Mas há questionar e questionar. No caso Viga d’Ouro, por exemplo, quando o executivo CDU divulgou os resultados da auditoria que encomendou – e que confirma tudo o que já era conhecido – a preocupação do PS e do PSD, em reuniões da Assembleia Municipal ( a última em maio), tem sido a de saber “quem” é a empresa contratada pela Câmara. Que a mesma trabalhava para “câmaras comunistas” e até tinha comunistas a trabalhar na própria empresa!
Quanto ao caso propriamente dito… revelou-se secundário… Mais milhão, menos milhão…
E vê-se o PS que no mandato anterior avançou com queixas à Procuradoria da República e jurou publicamente que não descansaria até que os responsáveis fossem punidos… E vê-se o PSD que na altura dos factos ocorridos tinha a maioria absoluta na Câmara de Silves… E o que fazem? Inquietam-se com a presença de comunistas na empresa contratada pela Câmara. Isto depois de terem votado, em sessão de Câmara, contra a divulgação dos resultados da auditoria quando Rosa Palma propôs que os relatórios fossem publicados no site da autarquia.
Não podem o PSD e o PS questionar a existência de comunistas na empresa contratada? Se calhar até podem, assim como a CDU fazia questão de lembrar que a PLMJ, contratada por Isabel Soares para a sua defesa no caso Viga d’ Ouro, é um escritório de advogados cheinho de nomes sonantes do PSD. Aos quais foi paga, aliás, uma quantia deveras elevada. Mas deixar diluídas as responsabilidades… como se nunca tivesse passado nada?

O meu amigo é que tinha razão.
Leio no Correio da Manhã, aquele jornal que parece que é o mais lido, que o buraco da banca soma 18,5 mil milhões. E o que é isso interessa? É como se essa realidade fosse coberta por um enorme véu que nos impede de a transportarmos para o nosso dia a dia e compreendermos que sim, está a fazer diferença e assim vai continuar por muito muito tempo…
Antigamente ouvia-se gritar “Aqui d’el rei!” . Mas hoje já não interessa, o rei já não acode.

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