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Laranjas

Como muitos deram conta, recentemente, decidiu o executivo camarário promover Silves, como a Capital de Laranja.
Parece-me uma ideia interessante, embora não seja nova, pois, como muitos se recordarão, o anterior executivo envidou vários esforços para criação de uma marca territorial específica para a laranja, muito à semelhança do que foi feito para os vinhos. À data e durante algum tempo, procurou-se criar a marca “laranja de Silves”. Todavia, devido a constrangimentos burocráticos e a um registo anterior de marca de origem junto da comunidade europeia, levou a que não pudesse haver uma “laranja de Silves”.

Assim, conseguiu agora este executivo, contornar este obstáculo e registar não uma marca de “laranjas de Silves” mas sim “Silves, Capital da Laranja”, o que, convenhamos, não é exactamente a mesma coisa. Esta alteração vem a revelar uma mudança de orientação e enquadramento.

Ou seja, não estamos a definir uma zona de cultivo específica e distinta do todas as outras no contexto nacional e regional, mas sim a identificar Silves, como um Centro produtor de laranja. Dito de outra maneira, o enfoque não está numa laranja diferente das demais, mas no Concelho que produz laranjas.
De uma forma geral a ideia é boa, e tudo o que seja para promover, positivamente, o Concelho de Silves parece-me algo que se deva olhar com atenção.
Porém, do que saiu na comunicação social e nas redes sociais, esta apresentação soube-me a pouco. Esperava que tudo isto fosse uma resposta directa a uma necessidade que este executivo tivesse identificado na comunidade. E, em consequência de tal necessidade, delineasse uma estratégia para divulgar este fantástico fruto de sabor singular, que este concelho produz.
Voltei a procurar e nada, nem uma linha dedicada à construção de uma estratégia para promoção do Concelho, onde a laranja se enquadrasse. Um completo vazio!
Apenas um evento onde se promoveu Silves como Capital da Laranja, sem que isso tivesse sido enquadrado num plano. Sem que a jusante dessa tarde passada no castelo se vislumbrasse a utilidade desta “capital” para a promoção e protecção deste Concelho e dos produtores de laranjas.
Vamos ao site e a informação que se recolhe não passa de um curta sucessão de quatro páginas web, com informações generalistas sobre a laranja (que se podem encontrar em qualquer lugar), e alguns testemunhos de comerciantes de Silves sobre a laranja.
Curiosamente, não temos uma listagem dos produtores de laranja deste Concelho, os seus contactos, o que têm a dizer sobre esta produção.
A sensação que nos fica é de um evento desgarrado sem consistência, onde os produtores são destinatários de um autocolante e não intervenientes directos na construção desta marca.
Espero que tudo isto seja mais do que um autocolante ou a aplicação de um logotipo em vários brindes publicitários com mais ou menos gosto, para serem dados a eito numa qualquer feira perto de si.
Importa proteger e divulgar o que é nosso, mas de não de qualquer maneira e, sobretudo, sem visão. Para a laranja fez-se um evento e depois? Qual a consequência do mesmo para o município, e muito especialmente para os produtores de laranja? Novamente, a falta de estratégia deste executivo emerge, mas até aqui nada de novo, e nesta falta de novidade começamos a detectar um padrão de acção.
De tudo, fica o esforço de defesa e promoção da Laranja deste Concelho, conscientes de que é preciso ir mais além.

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4 Comentários

  1. Embora com um pouco de atraso li, só agora, o artigo “PASSOS, LÁZAROS, RAMOS NA PÁSCOA ESTAMOS”, inserto na edição de Abril do “Terra Ruiva”, portuguesmente, muito bem redigido, por sinal, de acordo e com a qualidade, a que já nos habituou a colaboradora Maria José Grade Encarnação, que felicito, por isso.
    Porém, como “vale mais tarde do que nunca”, como diz o ditado, achei por bem, na qualidade de leitor do referido artigo, tecer algumas considerações sobre o mesmo.

    Há uma coisa que se chama honestidade intelectual, a qual não se compadece com qualquer cegueira, seja ela clubística, religiosa, partidária ou outra, visto que nos tolda a mente e nos impede de enxergar com um mínimo de isenção, transparência e imparcialidade, se a nossa cor tem, de facto, razão, nas observações que aduzimos.
    Talvez por esse facto, o meu espírito seja tão avesso a estar compartimentado em peias que o inibam de ser inteiramente livre de pensar.

  2. Dito de outro modo, não estou filiado em qualquer Partido (nem tenho intenção de o fazer), não sou sócio de qualquer clube e, quanto a religião, sou cristão, porém, prefiro manter uma distância saudável de qualquer das confissões em que se subdivide o cristianismo, designadamente, em relação à Igreja Católica.
    Em resumo, procuro ser, sim, um cidadão atento ao se passa à sua volta e que, sem ter a mínima veleidade de ser o dono da verdade, intervém, quando acha que deve intervir e mantém-se calado, quando a sua opinião é dispensável.

    Voltando à leitura que fiz do artigo da prezada colaboradora do “Terra Ruiva”, a que acima faço alusão, registo a grande apreensão que a articulista mostra por aquilo que, mais do que uma vez, numa crítica extremamente negativista, chama de “falta de estratégia” do actual executivo da C.M. de Silves.
    Vivemos num regime democrático e todas as críticas são legítimas, por direito próprio.
    Totalmente de acordo.

  3. Há, porém, algo que foge à minha compreensão e que me levou a escrever estas linhas.
    É que, durante o longo consulado da anterior presidente da autarquia, que me conste do que ia lendo dos artigos da prezada Maria José Grade, neste jornal, não me recordo de qualquer crítica que a caríssima tenha feito a uma gestão da Câmara que se saldou por um enorme défice, assim como a outros “acidentes” de percurso, como foi o caso Viga d’Ouro, para citar apenas estes dois aspectos.

    Retorno ao que acima disse e à necessidade de procurarmos que as nossas afirmações não se coloquem em confronto com a realidade, para mais, quando ela é, por demais evidente, em números e situações, e se nos mete pelos olhos adentro.

    Para terminar, quero acrescentar que não pretendo alimentar qualquer polémica, mas tão-só exercer o direito que me assiste de comentar um artigo tornado público, no jornal da nossa região.

    Com os melhores cumprimentos

  4. Completamente de acordo com o artigo. O evento sobre a promoção da laranja, para mim não passou disso mesmo um evento, onde se juntou algumas pessoas e onde beberam uma laranjada, quiçá com laranja espanhola!!
    Falta algo mais, falta estratégia, se algo mais não for feito não passará de uma mão cheia de nada, como aconteceu num passado recente.
    Como estou ligado “às agriculturas”, não entendo que a criação de uma DOP ou IGP possa ser a solução se esse caminho estiver na cogitação de algum iluminado. A laranja não é uva e o sumo não é vinho, o sector é muito diferente. O passado é disso exemplo, pois já houve várias tentativas deste tipo, será que ainda se lembram da “festa da laranja”?

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