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Refood Algoz- Tunes: Um ano a alimentar famílias

Aberto há pouco mais do que um ano, o Núcleo Refood Algoz-Tunes alimenta hoje mais de 70 pessoas, com a ajuda de cerca de 50 voluntários.
É um caso de sucesso, se é permitido usar essa palavra quando se fala de fome… mas é um êxito que não satisfaz Edgar Mestre, um dos gestores deste Núcleo e que falou com o Terra Ruiva.
“Se aceitássemos toda a comida que nos querem dar, não havia pessoas a passar necessidade no Concelho de Silves”. Mas faltam voluntários para que isso seja possível de concretizar.

O Núcleo do Refood no Algoz foi o primeiro a surgir no Algarve. O movimento Refood começou em Lisboa, com a ação individual de um cidadão estrangeiro, Hunter Halder. Na sua bicicleta começou a ir aos restaurantes, cafés e pastelarias da sua zona de residência, recolhendo os excedentes alimentares, o que sobrava ao fim do dia, e a distribuir o que lhe era dado a pessoas que necessitavam de ajuda. O movimento, pela sua simplicidade e eficácia, atraiu muitas pessoas e hoje está difundido em todo o país, assente numa premissa: todos, independentemente da função que ocupam, são voluntários. Toda a estrutura e sua eficácia dependem de pessoas que oferecem algum do seu tempo “duas horas por semana” – é o que é pedido a cada voluntário.

Edgar Mestre
Edgar Mestre

Assim, os cerca de 50 voluntários de Algoz – Tunes, sendo um número elevado tendo em conta a totalidade da população, acaba por ser um número
reduzido, tendo em conta as necessidades do Refood.

Já se citou na abertura da reportagem, a frase/desabafo de Edgar Mestre “Se aceitássemos toda a comida que nos querem dar, não havia pessoas a passar necessidade no Concelho de Silves”.

É um desabafo com um misto de revolta e tristeza. Saber que há famílias a passar fome enquanto quantidades impressionantes de comida com qualidade são deitadas no lixo, é um facto que choca.
Este núcleo alimenta diariamente várias famílias, num total de 73 pessoas, sendo que muitas delas são crianças.

A lista de espera tem atualmente cerca de 20 candidatos e não para de aumentar. Muitas destas pessoas são indicadas por Sérgio Antão, presidente da União de Freguesias de Algoz e Tunes, “uma pessoa muito humana, que nos indica muitas pessoas que precisam” e “pelas professoras que nas escolas se apercebem das crianças que têm dificuldades e que vão mal alimentadas”.
A essas pessoas são entregues sacos de alimentos que chegam de diversas fontes: de mercearias, pastelarias e restaurantes de Algoz, Tunes e Ferreiras, cadeias de supermercados e hotéis.
Na Praia da Galé, Armação de Pêra e Messines há estabelecimentos que querem contribuir e que já manifestaram essa intenção. “Mas para criar essa rota de Armação de Pêra e Galé, tinha de ter pelo menos cinco pessoas, uma para cada dia de semana e se calhar mais uma, para quando alguém falta… e para Messines igual…”
Assim, essas doações aguardam que surjam mais voluntários.

 

refood algoz mesa 2

Entretanto, a comida que já é recolhida é tratada na sede da Refood, no edifício da Junta do Algoz.

Uma parte dos alimentos frescos é recolhida em frigoríficos, por um ou dois dias no máximo, a outra é distribuída, juntamente com os produtos secos que também são oferecidos.

Um grupo de voluntários coloca os alimentos em sacos numerados. Os sacos não têm os destinatários identificados, mas o número permite aos voluntários consultarem um quadro afixado. Através desse registo ficam a saber quantas pessoas tem aquele agregado familiar, se há crianças e que idades têm, se são pessoas idosas ou acamadas, ou pessoas com algum problema de saúde que obrigue a alguns cuidados ou dieta alimentar.
Uma vez cheios de forma adequada, os sacos são levantados no local pelos destinatários residentes no Algoz. Os sacos destinados a famílias de Tunes são entregues nas suas residências, por um voluntário, para evitar a deslocação dessas pessoas.

O levantamento dos sacos constitui um momento delicado. Como conta Edgar Mestre, inicialmente havia pessoas que, apesar de terem necessidade, não se dirigiam à Refood. “Diziam que não tinham coragem de levar o saco. Depois, muitas deixaram de se sentir assim e passaram a vir buscar a comida. Mas há outras que temos de arranjar uma forma não visível de fazer chegar os alimentos. São pessoas que são censuradas pela população, dizem que antes andavam de Mercedes e agora andam ali… a sociedade não é sensível a estas coisas…”

A par da alimentação surge, frequentemente, a doação de roupa. Embora não seja esta a vocação da Refood, há sempre alguém a dar e alguém a precisar e vão fazendo também esse trabalho, na medida das suas possibilidades.

Edgar Mestre fala também de outro tipo de fome que tentam combater: “ nós dizemos que queremos acabar com a fome, mas não vemos só a fome de comida. Vemos muitas pessoas que vivem isoladas, têm outro tipo de fome, fome de convívio, fome de falar, de se exprimirem. Quando temos tempo tentamos sempre conviver um bocado com elas”.

Acabar com a fome a custo zero

A necessidade que sentem do outro lado e a vontade de serem úteis é o motivo que agrega os voluntários a este projeto. “O projeto funciona porque as pessoas dão do coração, não há dinheiro nem outros valores envolvidos”, afirma Edgar Mestre, o gestor que se autointitula “o S.O.S. “ deste Núcleo.
Tem de ser, justifica, quando alguém não aparece por algum motivo, faz o que for preciso. “Sei que se nesse dia faltar, no dia seguinte essa comida vai fazer falta”.
O mesmo sentimento anima a pequena equipa que encontrámos no dia desta reportagem. O Manuel Gonçalves que carrega os sacos e que nos garante que é um jovem de 82 anos, o António Encarnação e a sua mulher que fazem muito mais do que as duas horas semanais previstas…
No balanço do primeiro aniversário, Edgar Mestre acredita que este Núcleo tem condições para prosseguir, desde que apareçam mais voluntários, até porque as outras duas condições estão reunidas: “existe comida para entregar e pessoas com necessidades. Agora só precisamos de pessoas com algum tempo disponível”.
Na sua voz e nos seus olhos vê-se que é grande o empenho que coloca neste projeto, assim como os restantes gestores ( entre 10 a 12 ativos) e voluntários. No final, terminamos como começámos: “A quantidade de comida que vai para o lixo é superior às necessidades das pessoas. Com essa comida podíamos alimentar todas as pessoas necessitadas do concelho e ainda sobrava. E fazíamos isso a custo zero, que este é um projeto para acabar com a fome – a custo zero”, realça Edgar.

Para quem for sensível a este apelo, ficam os contactos do Refood Algoz-Tunes:
R. do Palmeiral, Algoz; Telefone:282 575 324; http://www.facebook.com/refood.algoztunes

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