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O Meu 25 de abril, por Luísa Anselmo

Naquela noite, de 24 de Abril de 1974, adormeci ao som da voz do locutor da que foi chamada Emissora Nacional, hoje, Rádio Difusão Portuguesa, João Paulo Dinis que anunciava: “Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho, com o Eurofestival 74, E depois do adeus.”
Era o sinal combinado para os Capitães darem início ao histórico Movimento. E eu adormecera, sem a mínima desconfiança do passo para o futuro que ia ser dado, tal como a maioria dos portugueses.
A vida ia-se-nos descolorindo, as auroras sucediam-se sem emoção da esperança. Apenas, em muitos de nós a tristeza, a miséria de calar, a revolta a germinar, com o que sabíamos do estado do país.
Acordei e, como sempre, liguei o rádio. Com espanto enorme ouvi: “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!”
Nem ouvi mais, em grande tensão, chamei meus pais. Acorreram e disse-lhes. Meu pai imobilizou-se, com os olhos brilhantes e minha mãe aflita, apenas, disse:- Filha!
Atordoados, colámos os ouvidos ao rádio, abrimos a TV.
Que Movimento era aquele? Da esquerda ou da direita? Prestámos febril atenção. Os comunicados e as imagens iam correndo. Até que já não nos restavam dúvidas e respirámos aliviados. E, em nós, passou a residir o apelo: Que tudo corresse bem e que, finalmente, o nosso país saísse da terrível apatia, do medo, da opressão, da estagnação em que se encontrava.
E o célebre dia 25 de Abril de 1974 decorreu em grande excitação, sentíamo-nos vivos, plenos de emoções. Lembro-me que à noite, vários colegas meus foram para minha casa. Não parávamos de fazer perguntas, ouvíamos o rádio, em frente à TV, torcíamos para que tudo corresse bem.
Quando me fui deitar, já madrugada, meus olhos fixaram-se, nos livros de Paulo Freire, que estavam, na estante, e pela minha mente, passou, como que em letras de fogo:-« Um povo só é livre se não for ignorante».

luisa siteJurei, ali mesmo, que daria a máxima colaboração para diminuir o número de analfabetos que sabia existirem no nosso país, cerca de quarenta por cento, sem falar nos semianalfabetos. Fiz o que pude.

Mágoa é que, passados dezenas de anos, estão por fazer, ainda, as autênticas políticas, educacional e cultural, e esquecida está a necessidade do aprendizado da democracia, perigosamente.
É flor que precisa ser adubada e regada, todos dias, para um crescimento autêntico.

( Texto e foto publicados originalmente na edição de abril de 2001)

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