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O Meu 25 de abril, por João Pina Pereira

joao pinaEstávamos em Novembro de 1969. Sem saber muito bem como, eis que o meu pai regressou de França para onde tinha ido em 7 de Agosto de 1968. Tinha vindo buscar-me e também a minha irmã. Cada um tinha ficado com um familiar, a minha irmã com a nossa avó materna em Messines, eu com um tio paterno no Cacém.

De repente, hei-nos embarcados numa viagem cheia de mistério e de perigo. Rumamos a Vilar Formoso, não me lembro muito bem mas a viagem foi feita de comboio e de automóvel, pernoitamos numa casa de uma terra perto da Guarda, que se chama Alfaiates.

Aí, um senhor reformado da guarda fiscal dava guarida aos que queriam dar o salto, dava guarida é uma maneira de dizer, que tudo tinha que ser pago, ficámos à espera do passador, a pessoa que nos encaminharia até Vilar Formoso. Éramos um grupo numeroso, à volta de catorze ou quinze pessoas de todas as idades. Recordo-me de um senhor com mais de 60 anos, os mais novos éramos nós, eu e a minha irmã, respectivamente com 13 e 12 anos.
Pela calada da noite embarcámos com destino a Vilar Formoso. Aí chegados alguém tinha dado com a língua nos dentes, certamente um bufo, palavra que para minha mim tinha outro significado que não o de uma pessoa que por dinheiro vendia a liberdade dos outros, mas que anos mais tarde percebi, sendo afinal o bufo um pássaro da família dos abutres essa conotação faz todo o sentido, já que os bufos vivem da desgraça alheia.
A noite estava fria e húmida. Numa zona onde havia casas em construção fomos encaminhados, um a um, para o interior de uma dessas casas onde nos deitámos no chão, de barriga para baixo, com medo até de respirar. À nossa volta ouviam-se passos e conversas do tipo “eles devem de andar por aqui”. Não me recordo quanto tempo ficámos nesta situação. Passado algum tempo tivemos ordem para sairmos para o exterior. Ao longe viam-se luzes envoltas numa neblina espessa, o frio fazia-nos transpirar e tremer. Corremos pelos campos em direcção a Espanha, para Fuentes de Oñoro mais precisamente. Eis que, no meio da negritude, aparece uma patrulha da GNR. Agarrados ao meu pai chorando, pensámos que a viagem ficaria por ali. Certo é que um dos guardas se mostrou comovido com o quadro que presenciava e foi dialogar com o seu colega a uns escassos metros. Voltaram rapidamente dizendo que não nos podiam deixar seguir e mais conversa que não me lembro, ao que o meu pai disse que nos deixassem seguir que a minha mãe já estava em França onde nos aguardava e que podia dar algum dinheiro a troco de nos deixarem seguir viagem. Um dos guardas mostrava-se mais renitente. Talvez fosse tudo ensaiado para conseguirem mais uns cobres à custa da emigração clandestina. O certo é que a troco de algum dinheiro deixaram-nos seguir caminho, e até nos indicaram o caminho mais perto para Espanha . Continuámos pela vereda, nova surpresa, fomos surpreendidos por um carabineiro (afinal já estávamos em Espanha) que nos interpelou: “Para onde van ustedes?”. O meu pai respondeu-lhe que íamos para França onde estava a nossa mãe, o que era verdade. Surpreendentemente, apenas nos desejou boa sorte e disse que Fuentes eram já as luzes mais adiante. Finalmente estávamos no cais da estação onde um comboio, ainda com terceira classe, nos levou até à fronteira espanhola-francesa. A viagem foi muito longa e penosa. Um frio de rachar entrava por tudo quanto era buraco e buracos era o que mais havia naquele comboio. Em determinada altura a máquina avariou e o comboio ficou em cima de uma ponte, já perto de França. Apenas se ouvia o ruído da água a correr muito longe. O frio era cada vez penetrante, aconchegávamo-nos uns aos outros, num misto de frio e pavor, havia quem rezasse. Depois de mais de quinze horas de medo, com vários controles feitos pela Guarda Civil Espanhola, chegávamos à cidade de Irun, do outro lado era a França, a cidade de Hendaye. Passámos por mais não sei quantos controles até finalmente chegarmos ao cais de embarque, rumo a Paris. Tudo era diferente, nunca tinha andado num comboio tão confortável. Até Paris não me lembro de mais nada. Vencido pelo cansaço, devo ter adormecido.

Era suposto descrever o meu 25 de Abril. Nessa data estava eu na escola, na Rua des Boucheries em Saint-Denis, arredores Norte de Paris, cidade onde se encontra o Stade de France, palco do Mundial de Futebol de 1998. Recebi a notícia com alegria. Alguém comentou que era mais um golpe de estado num país fascista e que Portugal se tornaria noutra Grécia, comandada por militares, que apenas se transformaria numa ditadura militar. Não liguei muito e ainda bem.
Regressei a Portugal em 1975. Agora, ao escrever este texto, percebi que o meu 25 de Abril já se tinha dado em Novembro de 1969 e foi o meu pai que me o ofereceu.

( Texto e foto publicados originalmente na edição de abril de 2001)

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