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“O Meu 25 de abril”, com as colaborações de Fátima Ramos Matos, José Vargas, José Silvério e David Marques

O Meu 25 de abril, por Fátima Ramos Matos

Respondo a um desafio, “Onde estava no 25 de Abril de 1974” e revisito os anos da minha adolescência …

fatima ramos matos

25 de Abril de 1974, 5ª feira, Portalegre, Liceu Nacional de Portalegre …
Naquela manhã, como habitualmente, depois de tomar o pequeno almoço e vestir a bata branca com gola verde, que indicava que frequentava o 5º ano, a caminho do Liceu … Não havia aulas. Naquela altura, como agora, os feriados eram festejados entre os alunos até porque eram raros. Que tinha havido uma revolta em Lisboa, falava-se … que Marcelo Caetano tinha sido preso… Eu não percebia muito bem o que tinha acontecido… diziam-nos que agora tínhamos liberdade e que começava a democracia…. (deixem que vos diga que eu, do alto dos meus 15 anos, conhecia o termo Democracia (Demo + cracia = governo do povo) do estudo da Democracia Grega… portanto, hábitos antigos… ) “Fascismo nunca mais”… mais uma coisa que eu não percebia… se o fascismo tinha sido um regime politico italiano porque é que nas ruas se gritava “Fascismo nunca mais” … mas o que mais me agradava … era que agora “o povo unido jamais será vencido”.
Corríamos para casa para ver o noticiário na televisão onde Fialho Gouveia era o rosto da informação.
No meu Liceu começou um período de RGA’s (Reunião Geral de Alunos) … muita greve (coisa que eu não percebia: se agora é que era bom, porque é que estávamos a fazer greve!), muito feriado… poucas aulas… muitas manhãs no Café Alentejano onde o Sr. Diogo pacientemente nos ia aturando. Uma coisa não me agradou… o Reitor do meu Liceu foi saneado. Eu até gostava dele: figura imponente que não tinha problemas de disciplina e que nem chegava a falar para se fazer obedecer … Não gostei.
Depois… continuaram as RGA’s , continuaram as manifestações de “o povo unido jamais será vencido”, os militares saíam do quartel, … só que agora usavam os cabelos compridos. E entre as manifestações em Lisboa que saudavam a saída dos presos políticos, a chegada de uns senhores que eu não conhecia de lado nenhum (Mário Soares e Álvaro Cunhal) e uma manifestação no dia 1º de Maio (dia em que comemoraria os meus 16 anos)…. a única coisa verdadeiramente boa era o facto de o meu pai, que trabalhava em Lisboa e ia às 2ªs feiras e regressava às 6ªs feiras, passar a estar connosco todos os dias da semana. E depois… os amigos que, segundo se constava, já não tinham que ir para a Guerra Colonial.
O período que se segue é de formação política intensiva… Grandes sessões de esclarecimento (que só esclareciam os esclarecidos!)… grandes comícios … E finalmente a opção pelo MES (Movimento de Esquerda Socialista) onde estava grande parte dos meus amigos, onde conheci gente que me ajudou a encontrar as minhas referências socialistas.

O Meu 25 de abril, por José Manuel Vargas

No 25 de Abril de 1974 trabalhava como livreiro na Rua do Ouro e morava no Cacém. Ás 7.00 da manhã, um vizinho, já na estação, disse-me que estavam avisar na rádio para as pessoas permanecerem em casa porque havia um golpe (não me lembro se foi essa a palavra) militar. Comentamos se seria de direita ou de esquerda e resolvemos ir ver. Quando cheguei ao fundo da Rua do Ouro já não se podia passar para o Terreiro do Paço. Fui dar uma volta para ver o que se passava dum ponto mais alto, na Rua Vitor Cordon / Largo da Biblioteca. Estava um grupo de GNR’s agachados, com velhas Mausers, e muito assustados, mas não deixaram passar.
Passei no Largo do Carmo, por volta das 9.30/10.00h e estava um informador da Pide encostado à parede do quartel, fingindo ler o jornal A Bola. O mais curioso é que tinha o jornal colocado de cabeça para baixo. Nesta altura já estava acompanhado pela minha mulher e rimo-nos da desorientação do sabujo. Depois voltei para casa, mas por pouco tempo e logo regressei, tendo vivido intensamente um turbilhão de acontecimentos até à saída de todas as edições dos jornais da tarde e tudo permanece muito vivo na memória, a alegria das pessoas, as manifestações espontâneas, os soldados com os cravos nos chaimites, mas sem conseguir estabelecer uma cronologia precisa ou sequência dos factos observados e vividos.

O Meu 25 de abril, por José Silvério

Eu vivi o 25 de Abril no Terreiro do Paço, Rua do Arsenal e Largo do Carmo. Entrei no Terreiro do Paço e por lá fique. O momento mais tenso foi a fragata fim dessa frente com a artilharia apontada para o Terreiro do Paço, outro foi na Rua do Arsenal atrapalhando os tanques vindos de cavalaria 7 e o ten. .Coronel deu ordem de fogo. Momentos difíceis.

O Meu 25 de abril, por David Marques

Nessa altura morava em Lisboa, na Travessa da Bica aos Anjos, e frequentava a 1ª Classe no Externato Costa Solar na Rua Maria. Apesar de ser próximo da zona da baixa não me lembro de movimentações na rua. Lembro-me vagamente, da família (avós maternos, padrinho e tia e primos) estar junta na casa de meus pais e de se jogar “à carta” e ouvir rádio uma vez que não podíamos sair de casa.
Recordo-me de alguma expectativa da alegria de minha mãe! Durante esse ano e nos seguintes lembro-me da ameaça de desemprego do meu pai e de subir a Avenida Almirante Reis até à Alameda, nas grandes manifestações de 1º de Maio que saiam muito próximo da minha casa.

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