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Sector da Cultura da Câmara de Silves- “Dar asas às associações e estimular a criatividade”

Quando se fala de cultura acontece aquilo que acontece quando se fala de futebol… toda a gente tem uma opinião! Mas quem faz do trabalho cultural o seu dia a dia, sabe que este é um trabalho exigente, difícil, e para o qual a recompensa tarda em surgir.
Na Câmara Municipal de Silves há agora um Sector da Cultura que o Terra Ruiva foi conhecer, no decorrer de uma conversa com os seus intervenientes.

Sérgio Costa, Sónia Pereira, Ricardo Lourenço, Pedro Garcia e Carlos Rocha ( da esquerda para a direita)
Sérgio Costa, Sónia Pereira, Ricardo Lourenço, Pedro Garcia e Carlos Rocha ( da esquerda para a direita)

No ano de 1991 nasceu na Câmara Municipal de Silves, a Divisão Sócio- Cultural, na qual “a cultura” estava integrada. Com o passar dos anos alterou-se a organização e mudaram-se os responsáveis e num passado recente este departamento deu por si praticamente extinto com um ou dois funcionários. Há cerca de um ano, tomou posse o novo chefe da Divisão de Cultura, Turismo e Património, Pedro Garcia. Ao Sector da Cultura foi atribuído um coordenador, Carlos Rocha, e reforços: Sónia Pereira, Sérgio Costa e Ricardo Lourenço completam a equipa.
O chefe da Divisão faz o ponto de situação: “ A equipa foi formada no ano passado, temos estado num processo de ver qual o panorama da atividade cultural no concelho, de ver quais os projetos que têm alcançado bons resultados e aos quais queremos dar continuidade e aqueles que queremos desenvolver, para formar uma programação cultural o mais eclética e variada possível para corresponder a todos os gostos da comunidade”.
Segundo o coordenador Carlos Rocha, atualmente, a ação do Sector desenvolve-se em torno de “grandes pilares”, que são as iniciativas: “ Algarve pelo Caleidoscópio”; “Lado B”; “Filhos da Terra”; “Festival de Teatro”.

O Sector é também responsável por várias “atividades comemorativas e de animação cultural, desde a Feira do Folar, as comemorações do 25 de abril, o Dia do Município, os Sunset Secrets no Castelo e a animação de verão em Armação de Pêra, às atividades da época natalícia que culminam com a organização do tradicional Encontro de Janeiras. A estas atividades soma-se a colaboração que é prestada a outros sectores ou entidades, bem como às associações e coletividades do concelho.
De entre os referidos “pilares”, destaca-se o projeto mais recente, “O Algarve pelo Caleidoscópio” que está a decorrer até ao final do ano, por várias freguesias. “É um projeto que nasce da necessidade premente de estreitar laços para formarmos públicos dentro do tecido associativo”, explica Sónia Pereira. “A Câmara teve reorganizações contínuas e demorou muito tempo a nascer um Sector da Cultura neste que é o 2º concelho maior do Algarve e o 2º com a população mais envelhecida, precisa de um trabalho muito estrutural que é importante que seja feito pelas associações”.
Este ano, o “Algarve pelo Caleidoscópio” tem como tema o património cultural/material, destacando elementos arquitetónicos, no próximo ano irá debruçar-se sobre o património natural.
O esforço de descentralização não se resume a este evento, destacando-se também a realização de diversos concertos pela Orquestra Clássica do Sul, nas freguesias do concelho.

Na conversa surge o tema da “democratização da cultura”. A cultura acessível a todos, para todos.
Mas como alcançar este ideal? E como chegar às pessoas e fazê-las vir e participar nos eventos?

Sérgio Costa tem tentado encontrar algumas vias para chegar aos diferentes públicos. “Estávamos um bocadinho presos às questões do fado, mas no concelho há outros tipos de música que têm a ver com a história da cidade e decidimos que teríamos de entrar noutros campos, explorar outras correntes musicais. Há uns meses, numa iniciativa de “Os Filhos da Terra” apresentamos algumas bandas de garagem que havia aqui, nos anos 80 e 90, na altura em que se vivia o sonho, agora apresentamos um documentário e um concerto com música punk. O que procuramos é ter uma programação para vários públicos, mas a dificuldade é encontrar as pessoas, o público, para alimentar isto. Por exemplo esta atividade das bandas de garagem foi tratada com indiferença pelos jovens músicos que estão por aqui na cidade e no concelho, pelas “bandas de garagem” dos dias de hoje. Tem de haver uma insistência e persistência”

“A cultura é persistência”, reforça Sónia Pereira.

O problema do distanciamento em relação às iniciativas culturais, por parte das pessoas, “é um problema que não é só nosso, outros concelhos com outros orçamentos e muito mais população sentem esse problema, o nosso caso até não é muito grave. Temos definido o nosso caminho, que é o de tentar chegar a todos e apresentar a maior variedade e é isso que temos de fazer”, diz Pedro Garcia.
“Se existir uma dinâmica passa a existir uma rotina e isso cria o público, se conseguirmos oferecer criatividade e inovação”, defende Carlos Rocha, mas destaca outra vertente do problema – “como comunicar com as pessoas?”
“Toda a gente sabe a que dias e a que horas jogam o Sporting ou o Benfica e sabem porque vão à procura dessa informação, mas poucas pessoas vão à procura desta informação”. Cartazes, agenda cultural, internet, redes sociais todos os meios são utilizados para a divulgação da programação cultural, mas a perceção que subsiste é que a mesma não chega à maioria das pessoas, ou não é por elas assimilada…
Uma das formas de contrariar o afastamento das pessoas dos eventos culturais tem passado, nos últimos tempos, por apostar na divulgação e promoção de jovens artistas do concelho ( um trabalho iniciado pelo Sector de Juventude da CMS). “Há gente muito boa no concelho e na região”, confirma Sérgio Costa, e a sua participação nos eventos atrai muitas vezes um outro tipo de público “gente que fala o mesmo código”, nas palavras de Carlos Rocha.

Também o Teatro Mascarenhas Gregório, que passou a ter uma programação regular, e que para o final de ano anuncia a realização do 2º Festival de Teatro – 2º Ato, tem conseguido criar uma dinâmica que dá ao seu responsável, Carlos Rocha, algum otimismo: “ em termos de percentagem, tendo em conta o número da população e o público que temos tido, o nosso teatro é no Algarve o que, proporcionalmente, apresenta números mais simpáticos, em termos de espetadores”.

Não menos importante no trabalho do Sector da Cultura da CMS é a área dedicada ao trabalho com as associações e coletividades. Uma área que está a cargo de Ricardo Lourenço, que se debate com dificuldades “por vezes até o contacto com as associações é complicado, têm uma dinâmica própria, normalmente são dirigidas por pessoas que trabalham, têm horários diferentes dos nossos…” .
A grande missão da autarquia é tentar dotar as associações de capacidades organizativas “para que futuramente sejam mais independentes”. “Há associações que são um grupo de amigos que se juntaram sem ter a noção do que deve ser uma associação e da responsabilidade que isso implica. Depois querem todo o apoio da Câmara para as suas iniciativas, mas sem terem as suas bases constituídas”.
O caso do programa PAIAC – através do qual a Câmara de Silves concede os apoios financeiros – é um exemplo de como muitas associações “ainda não perceberam que o calendário e as regras que existem decorrem da legislação em vigor e que a Câmara não pode atribuir apoios ou subsídios sem existir um critério e uma justificação”, diz Carlos Rocha. São infindáveis as vezes que Ricardo Lourenço, que gere o programa, tem de “andar atrás” das associações para que cumpram com o estabelecido.
Para colmatar esta situação, o Sector tem prevista a realização de reuniões com todas as associações, para esclarecer os procedimentos e dúvidas. Tem também prevista a realização de ações de formação para dirigentes associativos.

A ideia geral e repetida por estes técnicos é que as associações têm de se organizar e constituir autonomamente, com progressiva independência em relação à autarquia “A Câmara não pode ser a mãe nem uma santa casa da misericórdia. As associações têm de ser independentes, de terem a sua dinâmica e têm de ser capazes de correr sozinhas”, defende Carlos Rocha.
O chefe da Divisão, Pedro Garcia, explica a sua ideia de “mãe-helicóptero” – “A Câmara deve ser uma mãe-helicóptero que anda por perto, a supervisionar de cima, a dar diretrizes e a estimular, mas sem se meter, ou andar a fazer o trabalho pelos filhos”.

A nível interno, este responsável tem ainda em mãos outra tarefa complicada, a elaboração de um plano geral para a cultura no concelho ( que está a ser produzido) e um “grande trabalho de fundo que é criar uma estrutura homogénea com outras áreas da divisão”.

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