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Exposição sobre “A Estrada Municipal de 2ª classe nº 118, de Silves à Cruz de Portugal”

Nos Paços do Concelho, em Silves, encontra-se patente, até ao final do mês de abril, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “A Estrada Municipal de 2ª Classe nº118 de Silves à Cruz de Portugal “.
A exposição é acompanhada de fotografias e documentos.

Como habitualmente, o Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão reduzida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui: Estrada Municipal 118

A Estrada Municipal de 2ª Classe n.º118 de Silves à Cruz de Portugal

No início do século XIX as estradas existentes em Portugal eram de má qualidade e os transportes antiquados.
O Algarve era, nesta altura, considerado como um mundo à parte no vasto território do Reino de Portugal, uma vez que era uma região periférica, de difícil acesso por terra.
As comunicações existentes entre o Algarve e Lisboa faziam-se através da estrada por S. Bartolomeu de Messines, S. Marcos da Serra e Santa Clara/Saboia ou então recorrendo à estrada “inter-regional” que saía de Faro e que atravessava a Serra do Caldeirão, através do Barranco Velho, porém constituía um autêntico martírio para quem a utilizava, devido ao rigoroso troço e ao facto de no inverno ser praticamente intransitável.

Antes da chegada do comboio ao Algarve, a 21 de fevereiro de 1889, eram essencialmente os barcos, nomeadamente os caíques, iates e vapores, que faziam a ligação à capital do reino.

Terá sido a partir do triunfo do liberalismo, em 1834, e essencialmente depois de 1851, que os governos vão ter como objetivo desenvolver e modernizar Portugal, através da definição de objetivos e princípios orientadores para a construção da rede viária.
A política de Obras Públicas do período da Regeneração ficou conhecida como Fontismo devido à ação do Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Fontes Pereira de Melo que encetou uma política de construção de novas vias de comunicação e transporte (estradas, caminhos-de-ferro, pontes, faróis e portos) e desenvolvimento dos novos meios de comunicação (telégrafo e telefone).
As estradas passaram a ser consideradas fundamentais para o desenvolvimento local.

Em Silves não foi diferente, passando a ser uma das principais preocupações dos presidentes da Câmara Municipal.

Neste sentido, no final da década de 60 e início da década de 70 de oitocentos foi resolvido proceder-se aos trabalhos de construção da Estrada Municipal de 2ª Classe que liga esta cidade de Silves a Armação de Pera, passando pela povoação de Alcantarilha.
Em 1874 iniciou-se a construção da Estrada de 2ª Classe n.º72 de Pera a S. Bartolomeu de Messines, compreendido entre esta povoação e o Barranco Longo; em 1875 a construção da Estrada de Lagoa a Silves, lanço do sítio do Loubite a Silves; em 1878 principiou-se os trabalhos de requalificação do 3º lanço da Estrada Real n.º77 de Portimão a S. Bartolomeu de Messines, compreendido entre esta cidade de Silves e o Porto de Lagos; e em 1885 tiveram início as obras de construção da Estrada Municipal de 1ª Classe n.º13 de S. Bartolomeu de Messines ao Ameixial, concelho de Loulé.

Sentiu-se também a conveniência de melhorar as artérias existentes na cidade de Silves, que apresentavam-se em péssimas condições, bem como a necessidade de alargamento e calcetamento de algumas ruas e a projeção de novos alinhamentos.
Assim, em 1880 projetou-se o alinhamento de uma nova rua, a atual Rua Gago Coutinho. Em 1882, foi proposto o alinhamento e melhoramento da Rua das Hortas (atual Rua Cruz de Portugal) à Rua da Amoreira (atual Rua Elias Garcia).

Em 1882, sob a presidência de Gregório Nunes Mascarenhas, a Câmara de Silves sentiu a absoluta necessidade de construir um importante arruamento nesta cidade, designadamente a Estrada Municipal de 2ª Classe n.º118 de Silves à Cruz de Portugal que consistia num lanço único de Silves à Cruz de Portugal, ou seja, “ramal ou estrada que ligue a parte alta desta cidade com a estrada real n.º77 de Portimão a São Bartholomeu de Messines, cujo ramal deve partir das proximidades da egreja Matriz a entroncar na dita estrada real, no local da Cruz de Portugal, na extenção de 800 metros proximamente, e sendo facil e pouco dispendioza a construcção do mesmo ramal, propoz o Snr.º Presidente para se representar á Exma. Commissão Districtal, pedindo-se a criação deste melhoramento tão importante como util para aquella parte da cidade, visto não haver caminho por onde possa transitar, sem perigo, qual quer carro carregado” e ramal da Rua Cruz de Portugal (atual Rua Cândido dos Reis) ao perfil 24 do lanço supramencionado, extensão de 242,42 metros, ou seja, construção do lanço que atualmente corresponde à Rua do Mirante.
O projeto desta estrada, com a extensão total de 1.171,94 metros, é da autoria de José Lopes do Rosário, condutor auxiliar de Obras Publicas e data de 18 de novembro de 1882.
Encontrando-se aprovados os estudos para a sua construção, foi deliberado contrair um empréstimo para a construção da dita estrada, visto ser insuficiente o financiamento da obra por parte do fundo da Comissão de Viação, fazendo-se a amortização do empréstimo através dos rendimentos da viação municipal.
A 19 de agosto de 1883 foram postos em praça, por licitação verbal, os trabalhos de construção e dez dias depois foi assinada uma representação dirigida a Sua Majestade pedindo a “concessão do subsídio de 1.197.876 reis” para a construção da mesma. Em maio de 1884 estavam concluídos os trabalhos de terraplanagem, faltando somente o calcetamento.

No final do segundo semestre do ano de 1884 a Estrada Municipal de 2ª Classe n.º118, compreendida entre o Largo da Sé de Silves e a Cruz de Portugal e o ramal da atual Rua do Mirante, ficou concluída passando os silvenses a usufruir deste importante melhoramento que para além de permitir a circulação de veículos também ligava a zona alta da cidade com a estrada principal, correspondendo a uma estratégia de reordenamento do território.

Até ao final do século XIX e à implantação da República a cidade e o concelho de Silves usufruiu de grandes melhoramentos a nível da rede viária, no que respeita ao melhoramento, alargamento e calcetamento das artérias, bem como a construção de novas ruas e estradas.
Tendo em consideração que no final do século XIX aumentou a circulação de veículos, nomeadamente veículos de tração animal, na sessão de Câmara realizada no dia 26 de abril de 1902, sob a presidência de Gregório Nunes Mascarenhas, foi aprovada uma Postura que regula o trânsito e polícia dos veículos nas estradas públicas e ruas das povoações deste concelho “cohibindo assim diversos abuzos que diariamente são commettidos pelos conductores dos mesmos, pondo em grave risco a segurança dos trausentes e bem assim fixar taxas que devem ser cobradas” e na sessão de 26 de março de 1903 foram “designados os largos Serpa Pinto e Magalhães Barros, bem como a entrada da cidade junto a estrada que vae para Lagoâ e Alcantarilha para a permanência dos carros que tenham d’estacionar temporariamente n’esta cidade”.

Todavia os primeiros automóveis começaram a circular em Portugal por volta de 1895, e o primeiro que surge em Silves data de 1915, pertencente a Gregório Mascarenhas.

Enquanto principal centro industrial corticeiro do Algarve e terra de grandes potencialidades agrícolas e económicas, com um mercado aberto ao exterior através da exportação de frutos secos e citrinos, Silves beneficiou com a construção destas novas infraestruturas de transportes terrestres que são o resultado de esforços empreendidos por homens que, por razoes económicas, politicas e sociais foram (re) construindo ao longo do tempo uma malha viária condicionada por fatores geográficos e pelos avanços técnicos. Não obstante a época, o valor das estradas liga-se, não só ao seu traçado, mas também à exclusiva necessidade que os homens têm de se servir delas.

Bibliografia:
PACHECO, Elsa – Alteração das acessibilidades e dinâmicas territoriais na Região Norte: expetativas, intervenções e resultantes. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, GEDES, 2004.
PROMONTORIA MONOGRÁFICA – Fragmentos para a História do Turismo no Algarve. Faro: Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção, Universidade do Algarve, 2015.

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