Home / Opinião / Ter quinze anos aos cinquenta e três

Ter quinze anos aos cinquenta e três

Ter quinze anos aos cinquenta e três parece uma total idiotice, mas aconteceu-me no último dia do passado mês de janeiro.

 

Revi no canal Memória da RTP o filme Summer of ’42 (1971), com direção de Robert Mulligan, tal como o tinha visto no dia 1 de janeiro de 1978, ainda no cinema em Silves. Nessa data tinha quinze anos e decidira iniciar um diário que anotou um ano e oito meses da vida deste jovem que vos fala trinta e oito anos depois. Parece que o tempo e o espaço são relativos e por isso consegui ter quinze anos durante uma hora e quarenta e três minutos na noite de 31 de janeiro de 2016. Como na ficção científica dobrei o universo e entrelacei dois pontos ao meu belo prazer. Nessa noite fui dormir com quinze anos e com uma enorme vontade de tudo recomeçar. O preâmbulo do referido diário anuncia os quinze anos como a idade ideal para começar a recordar, a escrever as memórias. A primeira entrada é exatamente sobre a versão original deste acontecimento de paixão pelo cinema e por algumas das suas fitas. A senilidade avança a passos largos e já consigo recuar quase quarenta anos durante praticamente duas horas, quiçá um recorde pessoal, um bom exercício para os tempos futuros até à ancianidade total.

O principal problema é que no dia seguinte acordei de novo com os cinquenta e três anos, os quinze anos quase tinham totalmente desvanecido, apenas restava a memória da belíssima banda sonora do filme, assinada por Michel Legrand (Óscar de 1972). Se tivesse acordado com quinze anos aproveitava para ir a um cabeleireiro e pedir um corte moderno numa suposta farta cabeleira, assim seria possível folhear as revistas que encontro nesses estabelecimentos comerciais e decidir-me por um penteado original, sem a restrição do remoinho nem dos cabelos finos e escassos para penteados vistosos e assumidamente modernos. Nunca consigo fazer o penteado que me apetecia experimentar aos cinquenta e três anos e que ninguém nessa época ensaiava aos quinze. Nos tempos antigos era ingénuo, numa versão própria da idade, nos tempos de hoje não consigo ser ousado, condicionado pelas subtilezas da idade e a imagem da responsabilidade e de todas as outras idades que nos limitam até assumirmos a total decrepitude que nos libertará finalmente do tempo.

Quando recordo alguns destes acontecimentos vejo-me numa cidade pequena e provinciana mas com vida económica, social e cultural. Recordo os cafés de elite e os mal-afamados, mas recordo a existência de cafés. Recordo as lojas de roupa e as sapatarias modernas e antigas, mas recordo a sua existência e o seu dinamismo comercial. Recordo os restaurantes que surgiam alimentando a vontade e a possibilidade, conquistada praticamente com abril, de ir comer fora sem ser forasteiro. Os restaurantes ainda hoje são uma marca de qualidade da cidade, mas tudo o resto parece não existir. Não há entendimento suficiente em quem nos governa para recuar e retomar o nosso futuro e o futuro da cidade de Silves.

PartilharShare on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Email this to someonePin on Pinterest0

Veja Também

Os desafios dos próximos anos

Enquanto escrevo estas linhas, confirma-se que Rosa Palma revalidou o mandato de Presidente da Câmara …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *