Home / Sociedade / Entrevista / Entrevista a João Carlos Correia – “As pessoas que vêm para aqui têm de ter algo para dar”

Entrevista a João Carlos Correia – “As pessoas que vêm para aqui têm de ter algo para dar”

João Carlos Correia, 44 anos, é, desde há seis anos, o presidente da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu de Messines.
Entrou na atividade política porque não se sentia bem “apenas a falar”.Joao carlos

 

Presidente caloroso e carismático foi reeleito nas últimas eleições autárquicas com cerca de 80 por cento dos votos.
Reivindicativo e um eterno insatisfeito ( até consigo próprio), é também um homem de ação e os messinenses já se habituaram a ver o seu presidente a conduzir um camião ou uma máquina da Junta, ou a colocar o lixo nos contentores. Mas não é menor a sua preocupação com as carências sociais da freguesia.
Para a sua freguesia quer mais e melhor. Mas o dinheiro, esse “maganão”, nas palavras do poeta messinense João de Deus, esse não colabora.

 

Como se envolveu na atividade política, até ser candidato à Junta, como foi o seu percurso?
Até ser candidato à Junta, praticamente não tinha atividade política. Mas houve uma pessoa muito importante para mim, um político da CDU, Paulo Neto, ex-presidente da Câmara de Mértola. Começou na Câmara de Mértola como motorista e acabou como presidente da Câmara. E eu revejo-me nisso, não como presidente de Câmara, que as minhas ambições políticas ficam-se por aqui, mas nesse percurso de vida, pois em termos profissionais já fiz de tudo um pouco.
Quando o conheci, trabalhava nos CTT, em Messines.
O primeiro trabalho que tive, com ordenado, foi no parque de campismo de Albufeira. Depois fui jardineiro, trabalhei um verão numa estufa de flores, trabalhei nas bombas de gasolina de S. Marcos da Serra, trabalhei como serralheiro, depois como ajudante de eletricista, trabalhei em vários hotéis em Albufeira, trabalhei numa secção de peças na Guerreira Cabrita & Guerreiro, fui vendedor de iogurtes. E isto tudo antes dos 20 anos, antes de ir para a tropa.
Começou a trabalhar muito cedo…
No 10º ano, anulei a matrícula no 1º período. Tinha 16 anos e fui trabalhar. Acabei depois o 12º ano à noite. E concorri aos correios. Mas fui chamado para a tropa e quando lá estava tive a boa notícia que tinha entrado para os Correios de Portugal, e ainda me orgulho bastante de fazer parte dessa empresa. Entrei como carteiro, depois fui para os transportes, trabalhei aí durante oito anos, em Messines e depois na Guia. Até que já não era sustentável trabalhar à noite, e fui para o sector das encomendas comerciais. Nessa altura fiz um exame ADOC, para entrar na universidade, no curso de sociologia. Mas não consegui entrar nesse curso e deveria ter tentado novamente, no ano seguinte, mas estupidamente tentei entrar em Psicologia, por ser em Faro. Era uma área que não tinha nada a ver comigo e assim ficou por cumprir o meu sonho de tirar uma licenciatura… mas ainda não desisti totalmente da ideia, de tirar sociologia, o estudo do homem e da sociedade, são matérias que me interessam.
E foi para o balcão dos correios de Messines…
Quando fui pai pela primeira vez, aos 28 anos, concorri para o balcão. Tenho 24 anos de Correios. Todo este meu percurso, foi muito importante, as relações humanas que desenvolvi com pessoas de várias áreas, de vários quadrantes, isso ajudou-me bastante para entender as pessoas e o trabalho e o que são os direitos e os deveres de um ser humano, e de um trabalhador em particular.
Foi desse entendimento que saiu o salto para a atividade sindical?
Foi quando passei para o balcão que me comecei a interessar, não sei se tinha a ver com a idade. E andava muitas vezes a falar, deviam fazer assim, e não concordo com isto, por que é que fazem desta forma e não fazem daquela. E o pessoal do Sindicato dos Correios, o SNTCT, a determinada altura dizem-me, ai é, andas aí só a falar, então vai haver eleições e contamos contigo. Digamos que fui apanhado na ratoeira, temos que ter consciência que não podemos só dizer o que está mal, temos que tentar melhorar o que está mal. Então integrei a direção regional do SNTCT. Comecei a fazer visitas aos locais de trabalho, comecei a estar perto dos problemas dos trabalhadores.

Foi numa altura em que passámos uma luta terrível para a aprovação do acordo de empresa e eu levantava-me às quatro, cinco da manhã para ir para os locais de trabalho porque os carteiros entravam às seis horas. Vivi aquilo muito intensamente… foi um tempo muito quente e muito forte. E contribuiu para me aproximar do PCP, que é um partido que está perto dos sindicatos, que tem como grande linha os direitos dos trabalhadores. E quando me convidaram a entrar para o partido aceitei. Foi uma necessidade que eu senti, de estar mais perto das pessoas, de compreender, de estudar as leis do trabalho.
Também foi presidente da Associação de Pais do então Agrupamento de Escolas de Messines.
Já tinha havido uma tentativa, uns dez anos antes, mas fomos nós a criar a Associação. E conseguimos fazer algumas coisas, envolvemos alguns pais e criamos uma certa dinâmica… Muitas pessoas ainda não não perceberam a importância de uma associação de pais, mas é extremamente importante.
E da Associação de Pais para presidente da Junta…

No dia em que me disseram para ponderar a hipótese de ser candidato à Junta, muito sinceramente, nunca tinha posto essa hipótese.

No inicio disse que não, não me estava a ver com essa responsabilidade. Entretanto surge o nome da minha mulher, da Rosa (Palma) como possibilidade para a Câmara, e eu disse que era impensável concorrermos os dois e que arranjassem alguém para a Junta, pois achava que ela tinha mais condições, do que eu, para ser candidata. E recuei. Mas o tempo foi passando e chegou a altura em que tinha que se definir e deixei-me levar, sinceramente deixei-me levar pelos sentimentos… por aquilo que sinto por Messines e acabei por aceitar.
E acabou por ser eleito presidente e reeleito, para um segundo mandato, com quase 80 % dos votos…
As coisas na minha vida têm isso de giro… foram surgindo…
Mas tem consciência que esses 80% são um resultado extraordinário, invulgar.
( silêncio)… Pois… ( silêncio), é o resultado de alguma coisa… Muito sinceramente acho que isso reflete um bocadinho a minha dificuldade em gerir o trabalho da Junta, o trabalho familiar, porque não estou satisfeito, sou um eterno insatisfeito…
Quer dizer que se soubesse gerir muito bem tinha 100% ( estou a brincar)…?
Não. Digo isto porque tento ter total disponibilidade para o meu trabalho na Junta, mas a vida não se compadece com isso. Quando fui para as segundas eleições pus as hipóteses todas, nunca se sabe como as pessoas vão votar. Mas acabei por encarar o resultado de uma forma mais ou menos normal, como uma consequência do nosso trabalho, e ainda mais depois da Câmara ter sido ganha pela CDU. Na noite dos resultados, comecei logo a perspetivar como iria ser, pensei que iria ser melhor com a CDU do que tinha sido até aqui, mas para o nosso grupo representava mais responsabilidade. Vi logo que aqui na freguesia as pessoas iam esperar mais de nós e isso tem-se confirmado. Até porque as pessoas, para chegarem à Câmara, veem na Junta de Messines e na minha pessoa, uma forma facilitadora de resolverem os seus problemas.

E dizem, senhor presidente, fale lá com a sua mulher?
Dizem, mas normalmente isso não acontece. Vou mais falar com os técnicos… É uma ideia errada que algumas pessoas têm, que me pedem as coisas e que eu vou falar com a minha mulher. Tento desmistificar um pouco isso… eu tento ajudar e facilitar, às vezes se calhar deixo-me levar um pouco demais pelos sentimentos, e sou um bocado bairrista e luto pela minha terra. Mas compreendo que a Rosa, como presidente da Câmara está numa equipa que tem de ver as coisas de uma forma global, tem de olhar para todo o Concelho.
Um assunto que se comenta é como deve ser difícil esse equilíbrio familiar, entre duas pessoas que ocupam estes cargos, presidente da Junta de Messines e presidente da Câmara de Silves.
Sim, não é fácil essa gestão. E o tempo que estamos juntos é pouco, em prejuízo da família, dos filhos. Inicialmente, chegava a casa e bombardeava-a com problemas, mas já aprendi a evitar isso, falo com os vereadores, com os técnicos e vou por aí…
O facto da presidente da Câmara ser mulher do presidente da Junta de Messines não significa que a Junta de Messines seja automaticamente favorecida.
Não pretendo nem nunca pretendi que isso acontecesse. Pretendo é respeito, coisa que no passado nem sempre houve. Acho que somos uma freguesia particular, com a grandeza de área que temos, e que as coisas têm de ser vistas de uma forma mais razoável e mais objetiva. E isso ainda não se conseguiu, que a CDU só está na Câmara há dois anos e ainda não se conseguiu corrigir muitas situações. Mas quero crer que vão ser corrigidas, porque Messines tem uma área enorme, de 250kms2, com muita população dispersa. E nós temos de lá ir, a todos. Na semana passada tivemos de ir resolver uma situação em que só para ir e vir fazíamos mais de 40 quilómetros. Uma freguesia pequena terá os seus problemas, mas terá menos necessidade de investimento.

No mandato anterior, do PSD, lembro-me de haver muitas situações em que a Junta não estava de acordo com a Câmara e vice-versa, em assuntos. Neste mandato, com a CDU, já houve alguma dessas situações?
Sim, e as minhas intervenções na Assembleia Municipal revelam que, eu, acima de tudo, saio em defesa da minha terra. Porque acho que Messines foi uma terra bastante importante no passado e que a sua grandeza foi descurada e estamos a passar tempos terríveis. No passado houve situações com que não concordei? Houve, não podia concordar com a falta de responsabilidade do executivo que esteve sete ou oito meses sem transferir verbas para as juntas. Esse foi o maior confronto, uma situação inconcebível com a Câmara a dar-nos as competências e a não dar o dinheiro para as desenvolver. E no concelho houve casos de freguesias com ordenados em atraso por meses! É lógico que teria de discordar, confrontar e lutar contra isso. Com este executivo já tem havido situações que discordo e tenho levado as questões não só às reuniões que já foram promovidas, entre a Câmara e as Juntas, como às assembleias municipais.

Há alguma grande exigência da Junta que não tenha sido satisfeita?
Não, isso não. Este executivo tem-se preocupado em ouvir as juntas de freguesia antes de tomar as decisões e de fazer os orçamentos. E estamos de acordo nas obras que vão ser feitas na freguesia. É lógico que não é tudo o que queríamos, mas as obras estão aprovadas, estão em concurso e vão ser realizadas. Fica por fazer uma situação que eu gostaria de ver resolvida, que é a renovação da parte mais antiga da vila. O projeto que conheço, do anterior executivo, envolvia um investimento de dois milhões e meio, eu compreendo que não se possa realizar agora. Mas penso que se deve tentar os fundos comunitários nos próximos anos. Uma situação em que temos estado em desacordo, é a criação de uma área industrial municipal, que eu defendo, mas outras pessoas entendem que iria entrar em concorrência com a área privada. Penso que a única forma de Messines evoluir nos próximos anos, é conseguir-se uma área industrial pública, na qual a Câmara poderia jogar com incentivos, como outras câmaras fazem no país, há bons exemplos. Em Messines houve uma família que conseguiu fazer uma área industrial e ainda bem que conseguiu avançar, a muito custo, nem sempre apoiada pelo Município de Silves que estava naquela “ não faz nem deixa fazer” e eles tiveram de lutar contra muitas dificuldades e já mostraram que têm evoluído, com passos ponderados e com consistência.
Há uma área prevista no PDM.
Sim, está previsto um espaço, vamos ver para quem, se para um privado, se para o Município. O trabalho da Junta, tem de continuar, com pequenas ou grandes iniciativas. Mas sem trabalho não se consegue atrair pessoas.
Falando em atrair pessoas e de dificuldades colocadas pelo Município não podemos deixar de lembrar os entraves que o anterior executivo da Câmara colocou para a Junta não fazer a área para as caravanas. E agora passamos lá e está quase sempre cheia.
Foi outro grande conflito com o anterior executivo, a construção de um simples ponto ecológico para poder ser usado pelos autocaravanistas. Tinha eu a consciência que esse simples investimento seria importante e está à vista que tinha razão. Primeiro pedimos que fosse feito pela Câmara, a ex-presidente ( Isabel Soares) disse que não havia condições para isso; então pedimos autorização para nós próprios fazermos, disseram que não podíamos. Enquanto em Silves, há vários anos, os caravanistas passavam lá o tempo, a deitarem as águas sujas e o wc químico para as águas pluviais, para o rio, para onde cada um entendesse. E aqui queríamos fazer uma área com condições e com regras definidas. E achamos que um ponto ecológico também seria importante para as feiras e mercados, para os feirantes que cá vêm.
Foi uma estrutura construída praticamente à revelia da Câmara…

Uma Junta de Freguesia tem de ser vista como uma entidade responsável e deve ter alguma margem de manobra no seu território.

A Junta existe para alguma coisa. E nós fizemos aquele ponto para atrair pessoas e temos conseguido um contributo para o comércio local, para a nossa economia. Porque Messines está muito necessitado de pessoas, é a nossa maior carência, a falta de população e todos os que vierem são poucos.

Ao longo dos anos, tem sido uma pessoa muito preocupada com o futuro da Freguesia, e a Junta já organizou vários debates para discutir esta questão. Não vê perspetivas muito risonhas?
Vejo que há ferramentas que podem ser usadas para que o futuro seja mais risonho do que aquele que aparentemente ou à primeira vista irá ser. Esse espaço de área industrial, dada a nossa localização, seria extremamente importante para atrair empresas e trabalho. Através disso vem a população. Outro projeto importante caiu, que seria o estabelecimento prisional, iria atrair muita população, mexer com a economia. Na altura não soubemos acarinhar o projeto e houve forças de bloqueio e depois o próprio Estado deixou cair.
O que se perspetiva de novo?
Fala-se aí acerca de um espaço comercial aqui na freguesia, tenho duvidas sobre isso. Os exemplos existentes não têm sido os melhores, têm contribuído para o fim do comércio local. No imediato é bom, há concorrência, os preços baixam, mas tenho dúvidas se, ao final de dois ou três anos, não acabam com alguns postos de trabalho que ainda existem… também tenho consciência que irá atrair pessoas que possam vir a Messines às compras. Mas interrogo-me muito sobre isto, o lado positivo e negativo, a médio prazo.
No concelho, temos uma grande riqueza, os citrinos, uma área enorme de pomares, mas quantas pessoas locais lá trabalham? É um negócio que envolve milhões mas localmente não se sente. Sei da dificuldade que existe em recrutar trabalhadores locais, mas também sei os valores dos salários dessas pessoas e os horários de trabalho, são dados que temos de ver para entender esta problemática. É bom que os senhores empresários tirem lucro do seu negócio e do seu trabalho, mas também era bom que a localidade e a sua população lucrassem com esta atividade, devia haver aqui uma ponte.
Lembrando o que Messines já foi, uma terra de grande dinamismo económico…
Hoje em dia, no sector da agricultura, tirando os citrinos, o resto reduz-se a quase nada, a três ou quatro pessoas, numa área tão vasta como esta. E os pomares já se reduzem a meia dúzia de empresários, os pequenos produtores acabaram por abandonar porque o preço da fruta é o mesmo praticamente de há dez anos e os encargos aumentaram muito. Os pequenos foram obrigados a abandonar e quem tem mais poder já “abafou”.
A Junta acaba por ser impotente para travar este processo, embora saiba que tem feito vários esforços.
Há uma coisa que me sinto bastante frustrado por não ter conseguido. Não era minha responsabilidade, mas tentei que surgisse uma associação de produtores locais, facilmente se percebe a importância que isso poderia ter. Mas as pessoas não corresponderam, têm muita dificuldade no pensamento associativo, pensam muito individualmente. Insisti nas várias reuniões que a Junta dinamizou, com a Confederação dos Agricultores, vieram cá para explicar os benefícios, as contrapartidas, o benefício individual de cada um trabalhando em conjunto mas não consegui.

Focando na Junta de Freguesia de Messines, quais são agora as mais dificuldades?
O seu orçamento. Temos um orçamento que não se coaduna com a grandeza do trabalho que temos para desenvolver, com as várias competências que temos. Não se coaduna com a grande área que a freguesia tem, nem com a quantidade de trabalhadores que temos. Uma boa parte do nosso orçamento, 55%, é absorvida pelos salários. Temos 18 trabalhadores no quadro. Parece muito, mas no dia a dia é pouco, quando são distribuídos pelas várias competências que temos desde a secretaria, dois cemitérios, parque de feiras, mercado municipal, caminhos, recolha de monos, limpeza urbana… Temos à volta de 10 pessoas de programas ocupacionais, também é uma forma da Junta ajudar algumas pessoas. Agora as juntas continuam a ser o parente pobre da administração.
Qual o orçamento da Junta para este ano?
À volta de 520 mil euros.
Qual tem sido a evolução nos últimos anos?
Baixou. Nestes últimos dois anos manteve os valores, mas como há quatro e três anos tinha tido um grande corte, recebemos agora menos do que há uns anos atrás. O grande decréscimo foi em 2009, para 2010, precisamente na altura em que a CDU ganhou a Junta. Quando entramos aqui, recebíamos da Câmara Municipal à volta de 219 mil euros, passado um ano, baixou para 133 mil… E as verbas transferidas diretamente do Estado, também foram diminuindo. No ano passado, houve um pequeno reforço com as verbas dos IMIs , mas que não compensou nem de perto nem de longe as várias perdas. E estamos aqui com extremas dificuldades. As freguesias não têm financiamento próprio para desenvolver o seu trabalho. Andamos sempre à espera que as câmaras municipais retirem uma parte do seu orçamento para dar às juntas… não deveria ser assim. Deveria ser o Estado a olhar para as freguesias e a ponderar, ok têm essa grandeza, têm essa população, então vamos dar-vos condições para desenvolver o trabalho. Qualquer município do país gasta duas ou três vezes mais dinheiro a resolver determinados problemas do que uma junta. A Junta conhece o problema, está perto, e trabalha bem.

Olhando para a estrutura dos municípios do Algarve, como é que eles resolviam estas seis competências que nós temos, com 130 e tal mil euros, num ano? Eu acho que fazemos milagres. O que são 130 e tal mil euros para uma área destas?

Isto dá que pensar. Diz-se que a gestão pública é má, se calhar porque interessa a muitos que esteja mal vista. Mas há outra gestão pública, porque se formos ver ao terreno, ver a realidade de cada um, se calhar os dinheiros públicos não estão assim tão mal geridos. Mas é muito difícil trabalhar assim. E sobra para quem? Para a população, porque se poderia desenvolver melhor trabalho e sobra para quem está aqui.

Sinto muita frustração por ver tanta necessidade e andar sempre travado porque não temos dinheiro. Um exemplo é a área dos caminhos, a que mais absorve do orçamento da Junta.

Tem sido extremamente importante a relação, que já vinha do passado, com a empresa Tecnovia, que nos cede detritos para colocarmos nos caminhos. No dia em que isso deixar de acontecer, não sei o que iremos fazer. O dinheiro que a Câmara nos dá, para os caminhos, não dará para os materiais. E as outras áreas? Para termos como exemplo, quando o vice-presidente Mário Godinho era presidente da Junta de Silves, e ele já saiu de há dois anos, gastava em média 100 mil euros em materiais para caminhos e Silves não faz mais caminhos que Messines. No ano passado, gastamos perto de 30 mil euros em combustíveis e ficamos com 15, 20 mil euros para materiais, isso dá para três ou quatro caminhos. Portanto, a realidade e muito diferente da teoria. Na teoria vem uma verba para isto, outra para aquilo… é irreal, as juntas têm de ser vistas tal como são, com necessidades diferentes.
O que pensa da proposta que tem sido falada das juntas passarem a ter mais competências? Há dias ouviu-se o presidente da Anafre ( Associação Nacional de Freguesias) a dizer que estão disponíveis…
Há cerca de um mês houve um almoço de trabalho, organizado pela Anafre, com a participação das freguesias do Algarve, estavam perto de 60. Mas aquilo não estava estruturado para haver debate. Só falaram os deputados das várias forças políticas e os responsáveis da Anafre… eu nem sou muito de falar, mas estava com grande vontade de o fazer, porque fiquei muito preocupado com o que ouvi. Basicamente as freguesias recebem em relação à população que têm. Por exemplo, a Junta de Portimão tem cerca de um milhão de euros de orçamento e para que competências? Só tem parte da ação social, não se conhece mais nada…
E a Junta de Messines seria a favor desse alargamento, como defende a Anafre?
No atual enquadramento como é que é possível? A Anafre deveria preocupar-se primeiro em conseguir o equilíbrio entre o trabalho que as juntas desenvolvem com o dinheiro que recebem. Uma das coisas que essa nova lei prevê, a lei 75/ 2013, é a freguesia ser responsável pelo arranjo das estradas alcatroadas, ou pelo arranjo das calçadas. No caso de Messines esse é um trabalho que até já vamos fazendo, devido à falta de trabalhadores que o Município tem. A Câmara tem três calceteiros, um deles é encarregado. Para a rede viária tem sete trabalhadores. Isso é impensável para um concelho destes, por isso há muitos trabalhos que vamos tentando fazer. Eu percebo que há certos sectores da Câmara que é muito difícil gerir, e que há dificuldade em dar resposta, e isto não é desculpabilizar ninguém. Há sectores que estão claramente carenciados. Na rede viária há sete trabalhadores, quando já foram 30. A impressão que dá, é que antes queriam acabar com determinados sectores na Câmara, se calhar entregar esse trabalho a privados, e agora é difícil. Eu percebo isso e vamos tentando colmatar. Nós desenvolvemos muito mais trabalho do que as competências que temos. Desenvolvemos mais trabalho, pela ânsia que temos em fazer, pela necessidade que sentimos e por aquilo que as pessoas nos pedem. Pessoalmente custa-me, certas coisas que nos pedem, às vezes não conseguimos solucionar. Tudo custa dinheiro.

É como o vandalismo que tem havido na nossa terra, em termos de sinalética, por exemplo. É brutal. Faz ideia quanto é que custa recolocar um sinal de trânsito?

Se formos fazer as contas estamos a falar de 100 euros. E essa é uma daquelas questões que tem de ser analisada, custa muito menos se for a Junta a fazer…
Na prática há muitas tarefas que são da Câmara que a Junta acaba por fazer
A remodelação do Mercado Municipal, por exemplo, fomos nós que fizemos, no mandato anterior. Pintamo-lo todo, foi tudo arranjado, só no arranjo dos três portões gastamos quase seis mil euros. Muitas coisas até já estão a precisar de ser arranjadas de novo, são materiais antigos degradam-se mais rapidamente. Agora a Câmara está a trabalhar na requalificação do Mercado, pode ser importante para criar uma nova dinâmica. Que é difícil de acontecer, a média de idades dos trabalhadores do mercado é muito alta, não é fácil captar pessoas novas para ali. E as pessoas que lá estão também têm dificuldade em mudar um bocadinho. Já fizemos várias vezes propostas para alteração de horários, por exemplo para o mercado estar aberto ao final do dia, no verão, no Natal, na Páscoa, as pessoas que vêm do trabalho, em vez de irem ao supermercado, podiam ir ao mercado. Mas ainda não aprovaram essa ideia, e será difícil. Por isso digo que a Anafre, antes de concordar com mais competências, deve preocupar-se em captar do Estado as verbas necessárias para as necessidades das freguesias e para o trabalho que as juntas já desenvolvem. Há competências que as juntas podem desenvolver, mas é preciso termos estrutura para isso, mais verbas.
E pessoal.
Este ano queríamos abrir uma vaga. Mas não temos orçamento para isso. E a própria lei não permite contratar. Como podemos trabalhar?
Sei que também tem desenvolvido muito trabalho numa área que não é da competência da Junta, que é a ação social e que acompanha uma série de casos.
Essa área tem-me absorvido cada vez mais. Sinto muita preocupação com pessoas que têm carência de vária ordem financeira e mental. Essas pessoas não conseguem orientar a sua própria vida e o sistema não está preparado para ajudá-las. Por exemplo, há uma pessoa com um problema mental, que está a receber o rendimento social e recebe uma carta a dizer que tem de se apresentar em Silves. Tem uma crise uns dias antes, depois não se lembra que tem de ir a Silves e quando se apercebe tem o rendimento suspenso por dois anos. Deixa de receber o pouco apoio que tinha, 170 e poucos euros. E como é que fica? O que vai fazer durante esses dois anos? Ainda hoje fui a Silves, com essa pessoa, tentar apelar à Segurança Social. Ontem fui com outro a Portimão, ao hospital. Estava aqui, a fazer o segundo programa ocupacional, depois teve uma série de problemas, e desistiu. Há quatro meses que está suspenso e tem zero de rendimento. Agora foi operado aos olhos, teve de ir ao hospital, e voltou de lá com uma receita para uns pingos e uns comprimidos. A conta era de 42 euros! Como é que uma pessoa que não tem nenhum rendimento paga? E ele precisa dos medicamentos para continuar a ver… O sistema não dá resposta a estas pessoas.
A Câmara tem andado a fazer um levantamento das pessoas que precisam de uma ajuda especial, sinalizamos cerca de 30 casos. E nos últimos dois meses já identificamos cerca de 20 casos. As técnicas da Câmara perguntam onde é que vamos desencantar estas pessoas. São as dificuldades da vida, dificuldades financeiras, familiares, doenças, a solidão, tudo isso são fatores para o aparecimento destes problemas. Há dias foi internada uma senhora das Bicas, por esquizofrenia. E como é que isto começou? Começou a fazer-me chamadas, de um número privado, a várias horas do dia e da noite. Eu fui lá falar com ela, ouvi uma conversa estranha, o olhar da senhora assustou-me, Falei com a GNR nada. No dia a seguir a guarda foi chamada duas vezes, porque ela pegou em paus e ferros e segundo se diz numa arma, contra a vizinhança. E foi internada. Há vários casos destes. A Câmara está a finalizar um regulamento de apoio social, que penso que é urgentíssimo aprovar. Para situações pontuais. Eu não estou a defender que estas pessoas fiquem eternamente à espera e que nada façam.
Por exemplo, o homem que levei a Silves, disse-me que precisava de um trabalho, já falei com a Casa do Povo, para lhe ser dado algum apoio para alimentação, mas também trabalho. Espero que funcione, porque ele precisa, diz que a solidão absorve-o.

É frustrante não arranjarmos saídas. É o caso dos dois jovens deficientes que a Junta tem aqui na secretaria, eu tenho a consciência que vim provocar alguma instabilidade aos funcionários que trabalham aqui, e esta não é a situação, mais indicada para os integrar, mas é a melhor no momento. E esperamos que, com a ajuda da Câmara, as entidades vocacionadas para trabalhar com estes jovens os recebam. Quando os jovens vieram para aqui, o Sérgio e a Rafaela, não tinham hora para se levantar, para comer, estavam no seu mundo cada vez mais isolados. Só a questão de terem um horário, rotinas, regras já é uma ajuda para eles. O Sérgio é um exemplo muito positivo e muito me custa não poder ajudá-lo financeiramente. Teve um acidente muito grave, está reformado por invalidez. Para fazer um estágio remunerado teria de suspender a reforma. Mas quando o estágio acabar, tem de sujeitar a uma nova avaliação para voltar a receber a reforma. E nós sabemos como o sistema funciona. E se na avaliação encontra uma pessoa menos sensível ao problema? Imagine-se que lhe cortam metade da reforma? A família tem medo que isso possa acontecer, então o Sérginho está aqui a trabalhar como voluntário.
Já ouvi algumas criticas à sua atuação, porque a Junta gasta muito dinheiro a ajudar estas pessoas, e que o João está sempre a levá-las ao centro de saúde, ao hospital…
As pessoas que criticam são as que não precisam. Ou estão de má fé.

Então este homem que já não vê de um olho, que estava mal e precisava de ir ao hospital e que está com zero rendimento, vem aqui pedir ajuda. Eu não o ia levar? Então fazia o quê?

Tenho é pena de não conseguirmos fazer mais. No nosso programa para estes quatro anos, tínhamos a aquisição de uma viatura para estes serviços, que fosse buscar pessoas aos locais onde o autocarro da Câmara não chega. Mas mais uma viatura e mais um funcionário é insustentável para o nosso orçamento. A Câmara, este executivo, alargou a rota do autocarro, e muito bem, é muito bom para as pessoas saberem que têm um transporte num determinado dia da semana, para virem ao médico ou às compras, mas continua a ser difícil. Eu ando sempre a ver se arranjo boleias para este pessoal. Há pessoas que conheço que vão para Silves de manhã e peço-lhes… Isto é assim, todos nós estamos sujeitos a precisar de ajuda a qualquer momento.

A Junta tem que se preocupar com isso. Tem que se preocupar com a pobreza, com a deficiência… Eu costumo dizer que somos todos deficientes, mas uns já nos revelamos mais do que outros…

Há um projeto que está a ser elaborado na Casa do Povo, género um centro ocupacional para tratamento de pessoas com deficiência, está praticamente concluído, irá funcionar com o apoio da Segurança Social e com algumas parcerias, com a Junta, a Câmara, o Centro Social, os Bombeiros. Fizemos também alguma pressão para que isto nascesse. Isso pelo conhecimento que temos das situações. Mesmo pessoas de instituições, que não andam aí no terreno no dia a dia, não se apercebem que há tantos problemas, na área mental, na área da toxicodependência, desde drogas ao alcoolismo, na área da deficiência física, também jovens, por doença ou acidente. Os problemas estão aí, agora eu sei que isto é um bocado avulso, se calhar há algumas pessoas que precisam e eu não sei. Há uma grande falta de respostas dos serviços, no Algarve e na área mental então é terrível.

Falamos da sua preocupação constante com o futuro da freguesia, com o seu envelhecimento, falta de dinamismo.. que direções é que gostava que a freguesia tomasse?
O essencial é a criação de emprego, que como já disse, para mim, passa pela criação de uma zona industrial. Depois temos de desenvolver a parte cultural e ambiental, temos condições patrimoniais e naturais para atrair pessoas.
E desenvolver a parte económica, com os citrinos e a agricultura, para empregar localmente nestes sectores. Eu digo que a agricultura há de voltar a ter importância, ainda é da terra que se come, apesar de já haver aí umas técnicas em que criam produtos sem terra.
Já disse em tom de brincadeira, mas um pouco por desespero, devido à falta de pessoas, que nós podíamos receber umas mil a duas mil pessoas de fora. Lógico que de uma vez só isso seria insustentável, porque vêm com fome, necessidades e sem trabalho. Mas as casas estão aí fechadas e a terra está aí abandonada… Sei que poderiam aparecer outros problemas, mas o certo é que as pessoas estão aí, e se forem canalizadas para os sítios certos, nas condições certas, se calhar não são de mais, para esta Europa tão envelhecida…

Está a meio do seu segundo mandato, numa altura em que se costuma fazer um balanço e olhar para a frente. Continua com ânimo?

Continuo a gostar do que faço e continuo com a mesma força interior com que comecei.

Um bocadito mais cansado… por vezes gostaria de ter mais tempo livre e estar mais liberto também para me dedicar mais profundamente a algumas situações. Mas cada vez há mais trabalho, em áreas diversas… O dia começa às sete e meia da manhã e rapidamente são sete e meia da noite e ficam várias coisas por fazer e algumas coisas não são tão bem tratadas como outras. Mas é porque realmente não consigo. Agora o ânimo, está aí. E enquanto cá estiver podem contar comigo. Daqui a dois anos faço o balanço do trabalho, deste mandato e do que se conseguiu…

Uma coisa que me está a dar agora mais força são as obras que a Câmara vai fazer em Messines, anima-me ver esses projetos postos em prática, ver uma melhoria. É uma melhoria, não vêm resolver os nossos problemas de fundo. Mas realmente, num tão curto espaço de tempo, não houve um investimento tão grande nesta freguesia, como aquele que está programado. Nas últimas duas décadas de certeza que não houve…e mesmo antes não sei… é que estamos a falar de dois milhões e tal de investimento…
Montantes desses só quando apareceram os fundos comunitários e se fizeram grandes obras e infraestruturas…
As obras são muitas: é o parque de feiras, o terminal rodoviário, a conclusão da estrada de Vale Fuzeiros, a de Messines de Cima, a entrada poente, a rua Tenente Coronel Vargas Mogo, a parte do abastecimento de água, só aí são uns 500 mil euros. Isto é tudo bem vindo e é bom que as pessoas tenham consciência do que está a ser feito e vai ser feito e que estivemos aqui estes anos todos sem quase nada… E alguns projetos mais valia que não tivessem sido feitos, como esta obra que foi feita na Rua João de Deus, por favor…
O chamado jardim…
Custa-me imenso passar ali e visualizar como era antes, com a bica da água, o parque de merendas em grés, as árvores de sombra e agora é um descampado, um passeio com umas plantazitas. Já o jardim municipal… enfim, é melhor ter este do que nenhum, mas na altura perguntei à presidente Isabel Soares porque é que fizeram aqueles muros em pedra, um material que não tem nada a ver com a região. Isso foi o gosto do arquiteto, disse ela, eles apresentaram o projeto e nós concordamos. Foi tipo uma coisa assim… devia se calhar ter sido submetido à votação da população, devíamos ter uma democracia mais participativa, ir mais ao encontro do que as pessoas querem e gostam.
A democracia participativa também está muito fraquinha…
Agora começa a haver alguns sinais mais positivos, a nível nacional e do município. A tentativa de chamar as pessoas e envolve-las tem de ser a nível do município. A nível do Governo Central hoje diz-se uma coisa, amanhã faz-se outra, descredibiliza completamente. Por tudo isto, e por questões familiares e pessoais, tenho que avaliar, eu e o meu grupo, temos de avaliar o que pretendemos fazer, se continuamos e nos propomos novamente à população ou não…

As pessoas têm que querer estar envolvidas nos projetos de vida pública e participação pública e acreditarem que têm alguma coisa para dar. Se não acreditarmos… se vêm para aqui só para ter títulos como de presidente da Junta… não vale a pena… Para mim, é um título que, mesmo passados seis anos, ainda não me habituei a ele.
Chamam senhor presidente e não se lembra que é você?
Às vezes isso acontece… Sou uma pessoa terra a terra, gosto de ser tratado com normalidade, sou pouco a favor de títulos, gosto mais do nome que os meus pais me puseram.

PartilharShare on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Email this to someonePin on Pinterest0

Veja Também

Entrevista a Rui Barradas, do BE: ” O BE conseguirá colocar Silves no lugar que lhe pertence, no caminho do progresso”

«O Bloco de Esquerda conseguirá colocar Silves no lugar que lhe pertence, no caminho do …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *