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Lar

Portugal, entre os muitos sobressaltos que tem vivido, nos últimos tempos, foi acordado para a dura realidade da violência no seio da sociedade.

Ao falar deste tema, não me quero dirigir à violência da sociedade no geral, mas tão-somente àquela violência que ocorre dentro das quatro paredes do lar. Ao dizer esta palavra – lar – neste contexto, pareceu-me estranha e despropositada. Se lar é o nosso refúgio, o local onde encontramos poiso seguro e repouso, para quem vive a violência dentro do local onde reside, tal espaço pode ser tudo menos um lar.
Temos vindo a ser confrontados com os números da violência doméstica, que se mostram cada vez mas preocupantes. As mulheres assassinadas pelos seus maridos são cada vez mais, o que revela uma agressividade cada vez mais alta. Claro está que também não poderemos reduzir esta equação apenas a violência física, onde a agressão e a morte, assumem a preponderância, temos sempre de considerar a psicológica, por vezes com contornos mais maquiavélicos e perturbantes. Não posso deixar de notar que, também neste ponto há que vencer estereótipos e mudar o quadro do nosso pensamento, pois que nem só a violência é sobre as mulheres, mas também sobre os homens (só que, neste caso todo, o peso da diferença de sexos, martelada por tanto anos, cai de uma só vez sobre vítima e sobre autoridades policiais).
Notei também com grande preocupação, o aumento de casos de violência no namoro, e da forma como estes comportamentos parecem renascer de uma forma atroz, quem sabe fruto de um atavismo inato. Ou, quem sabe, fruto de uma educação demasiado laxista, onde se confundiu liberdade com permissividade e de maneira muito eficaz se criaram pequenos/as ditadores/as que apenas dão importância à sua liberdade e ao seu querer.

Toda esta reflexão veio-me à cabeça, com a triste notícia do falecimento de duas crianças, provocado pela sua própria mãe. Não posso deixar de ficar surpreendida com a notícia, e muito especialmente com o contexto em que tudo isto aconteceu.
Interrogamo-nos “como tudo isto foi possível?”, “onde estavam as autoridades?”, “onde estava o Estado”, “onde estava a protecção de menores?”. Tantos onde estavam os outros todos, mas tão pouco, onde estávamos nós?

De facto, o Estado, tem vindo a criar uma série de organismos com vista a olhar por uma série de situações que ninguém vê, ou quer ver. Digo isto de uma forma triste.

Recordo que fiz parte da CPCJ-Silves, em representação dos cidadãos, eleita pela Assembleia Municipal, de 2002 a 2004. Assisti ao início deste mecanismo de protecção dos jovens no Concelho de Silves, tendo olhado com tristeza o aumento do número de casos e, sobretudo, da complexidade das situações vividas pelas nossas crianças e jovens, bem como das suas famílias.
Quando olho para estes mecanismos que o Estado entende criar, e bem, não me pode deixar de assaltar uma sensação de demissão da sociedade civil. Um tremendo falhanço de todos nós enquanto família, amigos, vizinhos, comunidade, que parece que deixamos de ter capacidade de olhar para o outro e sentirmo-nos seus iguais.
Olhamos apenas para nós e vimo-nos, desviamos a cara dos outros e dos seus problemas. Aliás, para muitos, se os problemas são dos outros, então o meu eu não tem nada a ver com isso – e esta parece ser a atitude dominante.

Evoluímos muito, tecnologicamente falando. Temos mais conforto, mais mundo para viver, formas mais intensas de ter experiências de vida que, há meia dúzia de anos, eram impensáveis, mas evoluímos tão pouco do ponto de vista humano.

Seguramente, histórias como a das duas meninas que faleceram às mãos da mãe serão, mais frequentes, mas o pior é que nós ficaremos cada vez mais imunes a tal tragédia. Talvez apenas nos conforte o profeta Isaías, quando, sabiamente, nos dizia que ainda que a tua mãe te esqueça, Eu [Deus] nunca te esquecerei.

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