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Mulheres da Minha Terra ( 9) – A resistente que conheceu João de Deus

A senhora Joaquina Estreia morava numa rua de cima, que ganhou o topónimo de Travessa do Norte. Ela era a única sobrevivente do tempo do Educador e Poeta João de Deus.

 

Eu corria sempre para aquela rua, se assim se lhe poderia chamar, de casinhas assentes na rocha de grés, piso irregular, onde todas as casas eram iguais. Conhecia toda a vizinhança daquela artéria, que servia de barranco a todas as cheias invernosas que se derramavam do Penedo Grande. Por lá morava o José Júlio, o Duarte, moços do meu tempo. Ainda as raparigas amigas da minha irmã Irinice, como a Palmira que, um dia, sem mais nem menos, abalou para Lisboa, no seu sonho em ser enfermeira. E foi!
Mas era a senhora Joaquina, aquela criatura muito frágil, sempre ao sol, que me atraía à conversa. Desde que me contou que conhecera o poeta João de Deus, tinha ela oito a dez anos, lá estava eu disponível para escutar, numa tranquilidade que me deixava suspenso no tempo e no meu interesse, no saber que os mais velhos me incutiam. Toda a gente da terra de Messines respeitava aquela velhinha centenária, muito consumida e enérgica no dizer, no agir, no contar.
Minha Mãe dizia-me, num conselho: Não incomodes a Senhora Joaquina, que ela é pessoa de muita idade. Mas eu lá ia, contrariando essa ordem. Saber de João de Deus, que mais me poderia interessar? E a anciã a gostar de reviver o seu tempo de infância. Que o poeta juntava as moças da terra, quando vinha de Coimbra, ou depois de Lisboa. Ainda, quando, já doutor. E declamava “Beatriz: Tu és o cheiro que exala / Ao ir-se abrindo uma flor / Tu és o colo que embala / Suas primícias de amor!”

E eu ficava aguardando mais e mais. E ela, nessa letargia, como se adormecesse, lá vinha, nessa suavidade de mulher tranquila, porque sábia: Por hoje fica assim!

E hoje, nessa admiração dupla pelo poeta da minha terra que seguia a singeleza poética e clássica do imortal Dante Aligheri, entre os séculos XIV e XIX, e pela menina Joaquina, que me ensinou a conhecer os Poetas da “Divina Comédia” e do “Campo de Flores”.

O tempo passava nessa bonomia do viver de criança. Numa tarde de sábado, havia terminado a semana escolar. Era Inverno, talvez Fevereiro, vinha descendo a minha rua e vinham subindo três figurões. Dois eu não conhecia, enfiados nos seus sobretudos negros, assim como chapéu; o outro era o sr. Manuel Serafim Monteiro, comerciante e agricultor, que vivia na rua da Estalagem em concubinagem, uma “criatura em pecado”, assim dito de boca em boca, e que eu não entendia.

Ia descendo a rua, para a brincadeira, e o grupo do sr. Monteiro interpela-me, numa pergunta: Sabes onde mora a senhora Joaquina Estreia? Que sim, digo, em prestação infantil. E lá levei os três homens à rua da senhora Joaquina Estreia. Ela, toda embrulhada no seu negro xaile, dormia. Assim eu pensava. Era o sr. Monteiro perguntando-lhe: É a senhora Joaquina Estreia? Estão aqui uns senhores que lhe querem falar. E a senhora Joaquina Estreia mais calada que um rato. É então que um dos senhores de sobretudo, retirando os óculos negros, lhe faz a pergunta, inocente para a anciã: A senhora sabe onde se encontra o seu neto, o Dr. Manuel Estreia? Somos seus amigos e gostaríamos de o encontrar. Poder-nos-ia informar? Somos pessoas de bem. Muito amigos do sr. Doutor, seu neto.
A senhora Joaquina, moita carrasco! E eles, já os três, em conjunto e irritados, no mesmo interrogatório. E um silêncio em que se podia ouvir o calor do Sol, que aquecia a senhora Joaquina, numa mudez que me assustava. Eu aventurei, numa inocente mentira, para que a deixassem tranquila: Ela é muito surda, está dormindo. E lá abalaram os três intrusos, deixando-me, o sr. Monteiro, uma moeda de um escudo, na palma da minha mão. Num repente, a senhora Joaquina Estreia ergue a cabeça, numa pergunta: O Monteiro e os pides já vão longe? Como chegaram até cá?

E eu informando: Deram-me dez tostões. E ela, naquela sentença: Joga isso fora, que é dinheiro de Judas. E eu assim fiz, jogando a moeda, que já me escaldava para um quintalão de frente, sem nada entender. Só a palavra Judas me arrepiou.

Em casa contei à minha Mãe do acontecido, tim tim por tim tim. E ela, naquela doçura, sentou-se na sua cadeirinha de atabua e contou-me, como se eu fora uma pessoa adulta: Anda por aí gente muito perigosa, a quem não devemos de dar palavra. O Monteiro, não é gente boa. Andam à procura do neto da senhora Joaquina para o prenderem. E eu no contraditório, Mãe. Pareciam-me gente fina!
E minha Mãe a responder-me: Sim, sim, são todos uns finórios. Mas cuidado, não te aproximes do Monteiro, nem respondas a nenhuma pergunta que ele te faça. Nem fales disso ao teu pai. O que eles querem, nessas falinhas mansas, é prender e fazer mal. Porquê, Mãe? Que mal fez a Senhora Joaquina e o neto, o sr. Doutor, como eles disseram? E minha Mãe, numa carícia, a responder à minha pergunta: Não se fala mais nisso, prometes? E eu assustado, que sim.

Fui encontrando a senhora Joaquina. E fui encontrando os seus parentes quando ela faleceu. Muitos eram da terra: o Estreia sapateiro, os Estreias corticeiros, o Estreia ferroviário, a família Estreia costureira. E os de fora que não conhecia. A senhora Joaquina não teve funeral religioso. O padre Lola não apareceu. Estranhei o corpo mortal da Senhora, que chegara aos cento e poucos anos de idade, ou mais, ser levado para a casa de uma sua nora, viúva. Depois, toda a vizinhança soubera, no maior dos segredos, que o neto, o doutor Manuel Estreia, viera ao funeral da avó, sem se mostrar. E tudo morreu nos segredos do tempo em que se esquece e se revive.

Estando eu em Tunis, capital da Tunísia, estive presente num congresso francófono.

Há sempre uma voz portuguesa, e que se me dirige, sabendo da minha participação. Não há mundos distantes: tudo fica tão perto… Combinado um encontro na esplanada do café das Délices, o meu convidado era de apelido Estreia. Que estava a trabalhar naquela família de antigos Judeus residentes pela serra algarvia.
Ficámos numa convivência admirável, naquele descendente de gente da minha terra que ninguém sabia as origens. Os encontros trazem-nos os conhecimentos. Para mim foi enriquecedor saber que aquela gente, os Estreias, vinham em ligações ténues.

Ainda hoje pergunto-me se a Senhora Joaquina Estreia, sempre viveu nesse “mistério” conexivo, onde os Estreia se misturaram com os Ambrósios, etc , etc., nessa admiração eterna, de uma vida, pelo Poeta da Portugalidade, nascido na sua terra, que foi João de Deus, um dos raros homens das letras portuguesas que fez a admiração de uma nação de ramificações pelos continentes. Quem somos nós? Gente plural!

Por isso me debrucei pela memória dos judeus, pelos muçulmanos, pelos africanos, pelos índios, em que nos misturámos. Em 1993 publiquei o título “Faro no Verbo Amar”, em homenagem a diversos Homens e Mulheres. Samuel Gacon, o judeu de Faro que introduziu a primeira imprensa em Portugal, em Faro, em 1487, com o primeiro livro “Pentateuco”, no método de Gutenberg. E que, em 1596, pela religião e política, os ingleses chegaram a Faro, incendiaram a cidade, chacinaram o povo, saquearam, levando para a Inglaterra o primeiro livro publicado em Portugal. Ainda hoje está patente num museu londrino.
Esta Mulher da minha Terra, Senhora Joaquina Estreia, mulher de todos os tempos: resistente, sábia que a revivo em décadas do meu viver. Também a minha homenagem, repartida. Mulher que me incutiu o valor da resistência, saborear a poesia, nesse embrião de “Campo de Flores”, para outros campos…

 

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2 Comentários

  1. Quem diz que as pedras não falam é porque não apurou ainda o ouvido para perceber o que têm para nos dizer.
    Sempre que regresso às minhas origens, ao meu torrão natal de Messines, onde, pela primeira vez, os meus olhos viram a luz, falo com elas e elas comigo, numa linguagem silenciosa e cúmplice, e ali nos ficamos, momentos sem fim, donos do tempo, nosso aliado, que nos transporta, solícito, numa viagem ao passado, a um passado saudoso, distante, mas sempre presente.
    Corriam os anos quarenta e o meu Largo (actual Rua de São Sebastião) era um lugar de remanso, na sua pacatez habitual, mas cheio de vida e de sons, desde o ladrar do Pombinho, até à gritaria da pequenada de calções (de mim próprio), passando pelos pregões do Sainhas, descalço, apregoando a boa sardinha, pescada na véspera, a vinte e cinco tostões o quarteirão.
    Na manhã desse mesmo dia, tinha sido morto mais um porco preto, dos que, ao longo de todo o Outono e Inverno, o Manuel Neto comprava, na serra,

  2. e matava, semanalmente, para, depois, vender à vizinhança, na sua mercearia, fosse aos bocados para juntar a um cheiroso cozido de couves, à portuguesa, fosse para vender, como chouriços (com cravo de cabecinha) ou linguiças (com massa de pimentão), temperados pela mão mestra da Ti Maria do Rosário, a avó do amigo Fernando Correia, uma velhotinha já arqueada, pelo peso dos anos, mas que fazia verdadeiras jóias de culinária, que dispensavam rótulos artificiais de “gourmet”, pelo sabor único dos seus enchidos.
    Ao contrário de maçaricos a petróleo, utilizados, hoje em dia, para esfolar o porco, recorria-se, nesses dias de antanho, ao fogo de tojo colocado sobre o animal e, de seguida, a pedras ruivas que se esfregavam, enquanto era vertida água.
    A pequenada, essa, ficava com a bexiga, de que fazia uma bola, à falta de melhor.
    As unhas do animal eram enfiadas nos nossos dedos e delas fazíamos castanholas.
    Nostalgia desses tempos é o que nos resta …

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