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Medalhas para todos

Não sei se ao leitor já aconteceu… vai assistir a uma qualquer competição infantil e no final vê que há medalhas para todos.
Na prática não há diferenças entre o primeiro ( o melhor), o grupo intermédio e o último ( o pior). Oiço dizer que é para não desincentivar as crianças, para não as traumatizar e sei lá que mais… E toma lá medalha para todos… Assim, dizem, saem todos contentes… Menos os bons, os melhores, os que realmente trabalharam e se esforçaram para alcançar resultados que os distinguissem da maioria e dos últimos lugares, penso eu.
Nesta pedagogia invertida, desincentiva-se a competição porque coitadinhas das criancinhas… que mais coitadinhas serão quando, poucos anos depois, descobrirem que o mundo real é feito de competição, que terão de lutar por uma média para entrarem na universidade que querem e terão de competir no seu local de trabalho e pelo parceiro pretendido… e num número infindável de situações. Quando descobrirem que, afinal, só são especiais para meia dúzia de familiares e amigos.
Sendo uma acérrima defensora de oportunidades iguais para todas as crianças, lamento no entanto que a competição ( saudável, fortalecedora de caráter, com princípios) pareça um crime de lesa-majestade, no que se refere a crianças.
Sem a justa recompensa pelo que somos e pelo que fazemos, haverá vontade de superação?

É ainda pensando nestas questões que analiso um episódio ocorrido na última Assembleia Municipal de Silves. Como se relata nesta edição, tratava-se de uma reunião extraordinária, convocada com um único propósito, a discussão do “Estado do Município”.
Num determinado momento critica-se que o executivo camarário tenha divulgado uma nota de imprensa onde dá conta que (entre outras obras) mandou reparar o relógio que se encontra no edifício municipal e que estava avariado, sem funcionar, há cerca de 15 anos.

O dito relógio encontra-se na parte central e frontal do edifício mais nobre da cidade, os Paços do Concelho, mesmo por cima da porta por onde, diariamente, entram os mais altos representantes do Concelho de Silves. Ali foram feitas cerimónias, eventos, receberam-se individualidades… e o relógio avariado…
E ninguém reparou? Ninguém quis resolver?

Não sei… Indiscutivelmente, o relógio esteve parado, avariado, sem funcionar. E agora que já funciona, o PS não encontrou, na Assembleia Municipal, uma única palavra de louvor para o executivo CDU que o mandou arranjar. E também não encontrou uma única palavra crítica para o executivo PSD que o deixou avariado durante tantos anos.
É evidente que numa assembleia com várias forças políticas há / terá de haver divergências e combate político/partidário.
Mas visto este caso pela perspetiva do que se passou na Assembleia e transformando as três forças políticas em três crianças em competição… como distribuiríamos as medalhas? Medalha para quem se portou bem? Medalha para quem se portou mal? Medalha para quem nem sim nem não?

O conceito de medalhas para todos pode ser justificado por uma ideia de bondade e de uma falsa igualdade que não tem correspondência no mundo real. No mundo real os relógios avariam. E a atitude que temos perante as avarias do mundo e das pessoas é que define o nosso lugar e se temos ou não direito à medalha. E a exibi-la com orgulho, ou com modéstia, conforme o caráter de cada um.
Mas medalhas para todos, não…

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