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Tem mais encanto

Estive de novo em Coimbra, desta vez (a terceira no espaço dum ano) por razões académicas, no primeiro congresso do Espaço Matemático em Língua Portuguesa. A Universidade de Coimbra e o Departamento de Matemática continuam gravativos e áridos, como os conheci no início dos anos oitenta do século XX. Para mim, a cidade e a universidade sempre assumiram uma dupla face de regozijo e de frustração, tal como celebra a Balada da Despedida do 6.º Ano Médico de 1958 (Coimbra tem mais encanto), «Não me tentes enganar com a tua formosura/Que para além do luar/Há sempre uma noite escura». Há sempre uma noite escura, em que um homem chora defronte dos blocos graníticos dum conhecimento universal, elitista e infindável. Coimbra surge aos meus olhos como um penhasco que emerge de um país profundamente medieval, enraizado numa sociedade rural adversa à mudança.
Fiquei num hotel junto ao parque da cidade. De manhã, caminhava desde do Parque até à rua da Sofia (deusa do saber), que alojou em tempos idos os colégios (as faculdades), e apanhava um autocarro com destino à Universidade, junto ao Mercado D. Pedro V. Os homens e as mulheres que me acompanhavam na paragem dos autocarros ou que circulavam a pé nas imediações da baixa da cidade ainda sustentam aquele ar pesado das Beiras, duma antiguidade lusitana, acreditando ser possível testemunhar a existência do próprio Viriato. As mulheres, com buço forte, transportam sacos e canastras à cabeça, num passo decidido, ou, enroladas nos seus trajos escuros, rumam aos Hospitais da Universidade de Coimbra; os homens aparentam uma velhice antecipada e ostentam uns tecidos antigos, certamente aconchegantes, como personagens de um país conservador e iletrado. Este país conhece os Hospitais da Universidade e adorna os doutores com sofisticação de trejeitos e vocabulários próprios de uma sociedade sufocada e amaleitada.
Em Paris, percorri estupidamente a Gare de Austerlitz, um cais vazio, tentando encontrar uma trouxa, um garrafão (de cinco litros de vinho), pedaços dum país, retidos numa gare, num falar lusitano. O romantismo dos emigrantes em França aos olhos de um aldeão ajustado pelos valores da esquerda são apenas imagens que amparam a emoção e a razão. Mas que sei eu dos outros, dos sonhos destas gentes que eu vislumbro a partir da vasta janela da minha cidadela intelectual e económica? Como é a vida destas mulheres e destes homens que se cruzam comigo na cidade? Nada conheço da vida dos outros e nada intento conhecer mesmo arriscando adivinhar os seus sonhos, os seus medos e os seus desassossegos em relação ao futuro de um passado permanentemente repetível.

É improvável conhecermos a vida de alguém, para além de nós próprios, mesmo a nossa vida não a conhecemos, a nossa memória reorganiza-a transformando numa nova vida vivida ou intermitentemente esquecida. Ninguém consegue descortinar o real significado da sua vida e, muito menos, da vida dos outros.
Apesar das noites escuras e frias, Coimbra tem sempre encanto.

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