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Depois de Paris

Não seremos os mesmos depois de Paris. Sentimentos de revolta e de incompreensão invadiram as mentes europeias. Os acontecimentos do passado dia 13 de Novembro em Paris só vieram consolidar os piores medos dos franceses e dos europeus.
A actuação francesa na Síria contra o autoproclamado Estado Islâmico pode ser apontada como a causa primeira destes horríveis ataques, mas muitos anos de hipocrisia ocidental convidam a uma redefinição do pensamento.
O problema do terrorismo é de uma complexidade enorme. Mas o que é isto de terrorismo? Se o conceito só é aplicado quando se tratam de ataques contra o Ocidente, e não ao contrário. A justificação para ceifar vidas humanas vai ser sempre inaceitável seja em Paris, em Beirute, na Nigéria ou na Síria.

É altura de chorar por Paris, mas não se pode virar costas a todos esses que têm as suas vidas em perigo, seja na Europa ou fora dela.

Bombardear a Síria, trocando violência por mais violência, só vai incendiar ainda mais os corações de jovens já radicalizados que usam a religião como uma justificação para o ódio contra o Ocidente. Mas não combater as posições do Estado Islâmico só levará a um terror inacabável para as populações sírias e iraquianas, e consequentemente a um aumento do fluxo migratório para a Europa.
Os ataques aéreos da França ao Estado Islâmico, nos dias que seguiram os atentados em Paris, são uma demonstração de força e de hard power do país e de toda a coligação ocidental, de forma a mostrar que todas as acções terão consequências. Enquanto no centro da Europa cresce o fosso entre europeus e não europeus, alimentando-se sentimentos racistas e xenófobos dirigidos à maioria, quando só uma minoria considera a violência como o caminho a seguir. O Estado Islâmico é mais do que o autoproclamado califado (que os pobres curdos bem tentam deter!), é um ideal, e os ideais não se erradicam, eles permanecem adormecidos nas mentes de quem neles acredita. Tal como os ideais não são aniquilados dos jovens que tentam, na Síria e no Irão, transformar os regimes totalitários, ou como em Gaza se constrói qualquer coisa de um pedaço de betão. Estas pequenas flores de esperança, tão frágeis que são, deviam ser regadas, elas deviam ser o prelúdio do futuro, não a violência que se ensina aos filhos da Europa. Porque os acontecimentos de Paris, mais que um convite aberto à violência, convidam a uma reflexão da actuação do Ocidente no Médio Oriente, mas também sobre as relações do Ocidente com Israel e o virar de costas a Gaza (o sítio que o mundo esqueceu).

Porque o Estado Islâmico é uma criação ocidental, tenta-se agora combater o que se criou durante anos no Iraque, quando foram dadas armas a rebeldes que a ninguém obedeciam. O que deve ser condenado é a injustificação da violência sobre minorias, sobre inocentes, e nesse aspecto o Ocidente e a União Europeia não saem com as mãos limpas.

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