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Evocar a “tenebrosa” noite de 3 de outubro de 1840, em Silves!

A década de 1830 foi marcada em Portugal pela guerra civil, que opôs liberais e absolutistas.

Estava em causa a forma de governo, a velha estrutura do poder absoluto do rei, como alguns países mais conservadores ainda detinham, em que os três poderes, o legislativo, o executivo e o judicial, estavam agregados ao monarca, ou ao invés adotar um regime constitucional. Neste caso o poder de elaborar e promulgar leis é entregue a uma ou várias assembleias, o judicial é cedido aos tribunais, enquanto ao rei é reservado o poder executivo. De um lado e pelo absolutismo D. Miguel, expulso do reino na sequência de um golpe de Estado em 1824, do outro pelo liberalismo D. Pedro, o primogénito, todavia o promotor, em 1822, da secessão do Brasil e imperador do novo Estado.
>No meio Portugal, um país que vê morrer o rei D. João VI, em 1826, e que embora tivesse nomeado o filho D. Pedro como seu sucessor e uma regência, presidida pela filha D. Isabel Maria. Forças externas e internas conjugaram-se para uma sucessão conflituosa, e com ela uma violenta guerra civil oficialmente terminada com a Convenção de Évora Monte, assinada em 1834, com o exílio de D. Miguel no estrangeiro. Portugal seria um estado liberal. Porém, foram vários os movimentos guerrilheiros que se levantaram em defesa do absolutismo, um pouco por todo o país, de que o Algarve não foi exceção, com a conhecida guerrilha de Remexido. Esta semeou o pânico e o terror a partir de 1836 (como já o havia feito antes da Convenção de Évora Monte), não só na serra algarvia, mas também no barrocal e Baixo Alentejo. Em Silves a cidade, ou melhor os seus habitantes, restauraram as velhas muralhas medievais a suas expensas, permitindo assim que as três portas do burgo, Loulé, Azóia e da cidade, fossem fechadas, todas as noites, pouco depois do por do sol, protegendo os moradores de um eventual ataque da guerrilha. Mas se Remexido seria preso a norte de São Marcos da Serra, a 28 de julho de 1838, e fuzilado em Faro poucos dias depois, o movimento não se extinguia com ele.

Em Silves, na noite de 3 de outubro de 1840, decorria um arraial, com fogos de artifício, música e petiscos, junto à ermida de Nossa Senhora dos Mártires, então ainda longe do perímetro urbano, para o qual convergira a população da cidade e freguesia. Face à insegurança que se vivia encontrava-se o adro da ermida vigiado por dez praças da guarda nacional, enquanto na urbe ficara o destacamento de infantaria 25, composto por 23 elementos. Tudo decorria normalmente até que, entre as 20 e as 21 horas, quando os fogos começaram a arder, um popular deu o alarme, 30 a 60 guerrilheiros estavam a cercar o local, os quais de imediato começaram a disparar sobre a população. O pânico foi geral, precipitando-se a multidão para a zona urbana e com ela a guarda nacional, que dada a inferioridade numérica não atuou. O balanço da barbárie foi de 6 mortos (com idades compreendidas entre os 19 e 41 anos) e 14 feridos.

Os silvenses que até então viviam alarmados ficaram de luto e em choque. O Administrador do Concelho, o capitão Eugénio Damião Grade, solicitou de imediato reforço do destacamento ali sediado ao Administrador Geral (mais tarde designado por Governador Civil), dando conhecimento das “lamentáveis occorrencias da tenebrosa” noite de 3 de outubro e justificando a necessidade de “obstar a novas tentativas dos malvados”, contudo não obteve resposta. Face ao exposto a Câmara reuniu extraordinariamente a 9 de outubro, denunciando a “crítica situação em que esta cidade se acha pelo grande incremento da guerrilha em força de pé e cavallo”, pelo que solicitava diretamente e com urgência ao comandante da 8ª Região Militar que o destacamento fosse reforçado, de forma a “defender a cidade de hum novo assalto, de pôr em segurança os dinheiros e papéis da Fazenda Pública e de proteger as authoridades no exercício das suas funções”. Mais deliberava a Câmara, presidida por José Manuel Serpa, ressalvar-se de “qualquer responsabilidade, que sobre ella podesse pesar, se ficasse silenciosa, por novas e desastrosas occorrencias, que hajão de sobrevir”.

A 6 janeiro de 1841 o Administrador do Concelho informava o Administrador Geral que o cabecilha do assalto, Joaquim Consciência, havia sido capturado, juntamente com dois rapazes armados, pela coluna do capitão Noutel e recolhido a S. B. de Messines. Dois dias depois e na sequência de um Conselho de Guerra foi o dito cabecilha e um dos rapazes condenados à pena capital, tendo sido fuzilados no campo da Senhora dos Mártires, em Silves.

Não restam hoje reminiscências de tão trágico acontecimento na memória dos silvenses, todavia um filho ilustre da cidade, o Eng. Pedro Paulo Mascarenhas Júdice, estudou-o e divulgou-o na imprensa regional, em 1916. O seu contributo foi fundamental para que 175 anos depois reconstituíssemos tão negra página da história de Silves.

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