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Silves, por aí há poetas…

Dizem que no século XII, Silves sob o domínio mouro, era terra de poetas, mote que se dissesse a alguém, logo provocava uma quadra. Seria, será (por aí há poetas…) pelas tonalidades de beleza, que nimbam Silves, do amanhecer ao alvorecer, talvez das ainda irradiantes influências de heranças, dos muitos povos que nos antecederam, na região.

No seu livro, o nosso filósofo, José Gil, “Portugal Hoje. O Medo de existir”, afirma que um dos nossos dramas é mantermos o medo, ajudando a esquecer, a esfacelar a possibilidade de inscrição na nossa mente, na nossa memória, dos acontecimentos que muito amarguraram a vida de vários e portugueses, na ditadura.
Enquanto esquecidos, indiferente, ignorantes, mantemo-nos em grande perigo, em todos os sentidos… No passado dia 25 de Julho, fui assistir, na Biblioteca Municipal de Silves, à apresentação pelo seu autor, o escritor Custódio Rita (vive nesta cidade há mais de 40 anos) do seu segundo livro, “Por Este Rio Acima”.
Nele narra a vida de um alentejano, de muitos que por todo esse país viviam, sem viver, resignados, temerosos (não por acaso…) mesmo minguando-se-lhes tudo, o pão, a água, o bem-estar. Custódio Rita apresenta-se com saber vasto, como fonte de água benfazeja, por nos recordar o que eles sofreram, chagados, sem estímulos de vida. E soube fazê-lo, aqui e além, com laivos de dor sentida, pelo vivido ou sentido ou visto, temperado com humor ácido; dando-nos também elucidativa dissertação histórica.

A certa altura do livro, o personagem principal Arindo, dialoga com a sua mãe:- Disseste-me que a solidão não é estar só, é ter o coração vazio de amor ao semelhante, estar cego é, de olhos abertos, não ver o próximo sofrendo. Que o próximo está logo aqui, mas também pode estar no fim do mundo; e falaste-me em ser solidário em toda a largura da Terra habitada.” É o livro banho elucidativo sobre a nossa História… Obrigada, escritor Custódio Rita, continue por esse seu rio acima!…

Há meses, o meu amigo poeta, José Madeira Bárbara, ofereceu-me o seu novo livro, em três volumes, contendo centenas de poemas, e que vai ser apresentado, brevemente, mas que já se pode adquirir, em Faro, na livraria da rua do Município, “O Trigo dos Dias”. É poeta silvense, nasceu no Poço Barreto, mas é pouco conhecido, talvez pelo seu modo de existir, simples, simples, sem gostar de destaques.
É bom poeta diarístico do que lhe tem sido dado viver e observar. Merece ser mais conhecido, o que escreve tem beleza, acerto e convite à fraternidade. A propósito, será esta ajudada pela nova tecnologia, ou separa os humanos, criando entre eles, bolsas de gelo, bolsas de distanciamento; acabando, entre eles, com a maior necessidade do ser humano, a ternura próxima do outro, terminando com a palavra amiga, olhos nos olhos?
Volto ao meu amigo poeta, agora, com o pseudónimo que usa, Pedro Jorge:-Tanto poetiza acontecimento, como poetisa homenageando artista esquecido ou não, por exemplo, naquele caso, Samora Barros, nosso bom pintor, que homenageia com um poema no segundo volume. Artista que bem merecia uma exposição permanente, da sua obra, nesta cidade; como em contemplação emotiva, poetiza a beleza da Natureza; e como em sombras poéticas, poetiza injustiças, atos reprováveis de humanos contra humanos.
Dele trago-vos, primeiro volume, a “Canção das Casa sem Vozes”:
– À Beira dos rios nasceram/aldeias cheias de vida/os rios não secaram/e as casas estão vazias./Semearam-se casais/ pelas quebradas dos montes/os montes não desabaram/mas nas casas ninguém mora./Junto da areia das praias/brotaram os povoados/as ondas seguem batendo/e as casas estão fechadas./Que peste negra ocorreu/nesta terra portuguesa/para que os homens partissem/ a viver sob outros céus?/

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