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O sangue dos outros

Todos somos responsáveis por tudo perante todos” Dostoievski

O mundo mergulhou no caos. Perdeu-se a humanidade que havia em cada um de nós. Estamos cada vez mais próximos, nesta grande aldeia global, e no entanto tão afastados. Cada um alienado no seu próprio smartphone, enquanto se transformam valores outrora considerados universais e essenciais. Todos somos o Zé Ninguém do Reich.

De repente todos parecem ser capazes de corroborar com sistemas autoritários, se esse for o preço a pagar para prevenir a entrada de migrantes na abençoada instituição que é a União Europeia. De repente, o recurso à violência parece boa ideia, se os impedir de “entrar”. Eles que têm um credo diferente, que são diferentes, não se quer cá disso.

Nas últimas semanas, cada um tornou-se num pequeno Hitler, todos pequenos ditadores capazes de mandar muçulmanos para campos de extermínio. Nós, a Europa que prega a Liberdade, a Democracia e os Direitos Humanos… Esses pasquins a que se chamam jornais apregoam a ameaça a que estão sujeitos os países membros. Esses mesmos pasquins que se contentam com as tragediazinhas dos outros e que são um grande senhor gordo capitalista com direito a cartola e tudo. E depois há a Hungria, o país que se tornou num sistema de xenofobia gratuita e de pluralismo inexistente. Mas essa transformação não é de agora, relembre-se quando Viktor Orban alterou a constituição nacional enquanto as instituições europeias assistiam serenamente, como não é de agora a guerra na Síria que dura desde 2011 (!!!). Aparentemente, a distinção entre o bem e o mal perdeu-se na confusão que se tornou a vida. Perdeu-se a direcção.
A União consagrou-se numa grande desunião, sem rumo e presa por um ténue fio. A partir do momento em que não existe lugar para alternativas, para vozes diferentes, em que se fazem ultimatos a países que não querem seguir a via existente (pense-se na Grécia) sabemos que a ruína está para breve.
E essa divisão é fruto da mesquinhez que preside aos conselhos de ministros da União Europeia, é fruto de uma cultura ao “eu”, por não existir um lugar para o “nós”.

A culpa pode ser dividida por todos nós, por cada um de nós que não soube levantar a voz quando era preciso, que ainda não compreendeu que nem tudo o que nos dizem ser verdade é inquestionável, que ainda não percebeu que existem guerras porque há sempre alguém a lucrar com isso, que ainda não questionou as cruzadas que se fazem para levar a democracia aos quatro cantos do mundo. Porque se perdeu a capacidade de fazer perguntas e de pensar, torna-se tão mais simples quando temos alguém a dizer como se deve ver o mundo. Quando se acordar, já viveremos numa era orwelliana. E se existe alguma vida em risco neste planeta, essa existência há-de pesar sempre sobre nós, havemos de ser sempre responsáveis pelo outro, quer queiramos, quer não, simplesmente porque aceitámos tudo.

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